Mães sobrecarregadas: como a falta de políticas públicas agrava o burnout materno no Brasil
Mães relatam esgotamento físico e mental na rotina de cuidados e apontam medidas para reduzir a sobrecarga
Por Beatriz de Oliveira
01|04|2026
Alterado em 01|04|2026
Em Recife (PE), Sarah Nascimento, profissional do marketing e gestão empresarial, encara cotidianamente o desafio de conciliar o trabalho com a rotina de cuidados do pequeno Álvaro. Durante o primeiro ano de vida do menino, ela passou pelos momentos mais difíceis, sem rede de apoio, o que resultou em cansaço físico e emocional.
Em Belo Horizonte (MG), Vanessa Lopes vive uma jornada tripla, dividindo seu tempo no trabalho como assistente social, na locação de brinquedos para complementar a renda, e no cuidado com a filha, que precisa fazer terapias regulares em razão de um atraso na linguagem. Na correria do dia a dia, a sensação de esgotamento é um ponto constante.
Em São Paulo (SP), a jornalista Maitê Freitas vive uma maternidade solo e entende o cansaço para além da rotina diária de cuidados com a filha. Para ela, o “eterno senso de responsabilidade” para que a vida da pequena Ilu flua da melhor maneira é o que gera maior sobrecarga.
O relato dessas mães reflete um cenário de esgotamento físico e mental vivido por boa parte das mulheres que maternam no país. Em 2024, a pesquisadora Giliane Belarmino lançou um levantamento realizado com 872 mães. Entre os resultados, 97% delas disseram que se sentem sobrecarregadas quase todos os dias, enquanto 94% relataram estar esgotadas.
Burnout materno ou esgotamento materno trata-se do cansaço extremo sentido pelas mães, em decorrência da sobrecarga física, emocional e mental a partir das tarefas cotidianas de cuidado. Esse sentimento reflete pressões sociais, ausência de rede de apoio e acúmulo de demandas colocadas sob a responsabilidade da mulher.
Pesquisas confirmam também que as mulheres são as maiores responsáveis pelo trabalho de cuidado do país, o que inclui a criação de crianças. De acordo com o estudo “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, elas somam 80% de todos os serviços não remunerados de tarefas domésticas e amparo aos familiares.
Segundo definição do governo federal, o trabalho de cuidado envolve tarefas como a preparação de alimentos, limpeza, gestão e organização da casa, bem como as atividades de assistência, apoio e auxílio diários para pessoas com diferentes graus de dependência.
Para as mães solo, o fardo é ainda maior: 45% das mulheres que têm filhos são responsáveis sozinhas pela criação deles, segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, realizada pela Fundação Perseu Abramo.
Diante desse cenário, como a questão é tratada pelas políticas públicas? Como o esgotamento físico e mental das mães poderia ser aliviado diante de medidas efetivas? Nesta matéria, o Nós, mulheres da periferia aborda esse cenário.
Projeto de lei busca prevenir o burnout materno
Está em tramitação no Congresso Nacional o Projeto de Lei (PL) 5063/2023, que cria uma política de apoio e prevenção à estafa mental ou burnout relacionados à maternidade. O texto foi aprovado pela Câmara em setembro de 2025 e aguarda avaliação do Senado.
De autoria da deputada Maria do Rosário (PT), a justificativa do projeto aponta: “um país preocupado com o futuro das novas gerações deve criar uma política de apoio às principais cuidadoras das suas crianças, que em nossa sociedade desigual, na prática, são as mães”.
O PL prevê ações integradas entre os órgãos de saúde, assistência social e educação. Define-se, por exemplo, que o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá promover a capacitação de profissionais de saúde para prestar atendimento especializado em questões de depressão pós-parto, estafa mental e burnout na maternidade.
Outras medidas previstas são:
Garantia de acesso a consultas com profissionais de saúde mental para gestantes e mães no SUS;
Promoção de grupos de apoio à maternidade nas unidades de atenção primária à saúde;
Estímulo à flexibilidade nas jornadas de trabalho em relação à modalidade híbrida ou remota, preferencialmente para mães de crianças de até 4 anos de idade ou daquelas que comprovadamente necessitem de atenção e cuidados;
Estímulo à educação infantil em período integral, com programas pedagógicos e assistenciais voltados para o apoio às famílias;
Promoção de políticas públicas e redes de apoio que incentivem cuidados familiares compartilhados e igualitários;
Prevenção do abandono escolar da mãe estudante;
Políticas de incentivo à criação de espaços de cuidado infantil para facilitar a manutenção do trabalho e do estudo das mães.
Para Nana Lima, empreendedora social e diretora da Think Olga, o projeto de lei apresenta caminhos necessários para o amparo em relação ao esgotamento materno. “Na nossa pesquisa Esgotadas, vimos que 45% das mulheres têm um diagnóstico de transtorno mental. E as principais causas são o endividamento pela falta de dinheiro e a sobrecarga do trabalho de cuidado”, relata.
Ela considera importante também a capacitação de profissionais para receber as demandas de estafa mental das mães, num contexto em que o burnout materno costuma ser ignorado ou normalizado.
©divulgação
Outras medidas que impactam na sobrecarga materna
Em relação às medidas já existentes que impactam positivamente na maternidade, Nana Lima afirma: “há muitas iniciativas, como o Bolsa Família e a Política Nacional de Cuidados, mas nem sempre elas são interconectadas e olham para a jornada, a renda ou a saúde da mãe de forma completa”.
A Política Nacional de Cuidado, sancionada em dezembro de 2023, está em fase de elaboração de um plano de medidas efetivas que visam garantir o direito ao cuidado, por meio da corresponsabilização social e entre homens e mulheres. “Temos a esperança de que essa política possa ser uma importante catalisadora das principais necessidades das mulheres, incluindo as mães”.
Nana Lima comentou também sobre a política recém-aprovada do aumento da licença- maternidade e da tramitação da proposta de extinção da escala 6×1. “São pautas vitais porque entregam para as mães o que elas mais precisam: tempo, pausa, apoio e corresponsabilização. Mas as políticas não resolvem sozinhas. É preciso haver uma mudança cultural e um entendimento da centralidade do cuidado na vida de todos nós”, diz.
O que as mães querem?
Ouvimos também as mães mencionadas no início da matéria acerca de medidas e políticas públicas que acham necessárias para diminuir o esgotamento materno. Elas versaram sobre a necessidade de apoio financeiro e de saúde mental, bem como maior estrutura de creches e locais de cuidado para crianças. Leia os depoimentos:
Sarah Nascimento
Quando se fala em políticas públicas para mães, a discussão não deveria ser apenas ampliar o número de creches, mas garantir que elas funcionem com estrutura adequada e horários que dialoguem com a realidade das famílias.
Hoje, muitas creches funcionam basicamente em horário comercial, geralmente das sete da manhã às cinco da tarde, de segunda a sexta. Mas a realidade de muitas mães é diferente disso. Existem mulheres que trabalham em turnos, à noite ou aos fins de semana, e acabam ficando sem alternativas de cuidado para os filhos.
Além disso, políticas que apoiem a permanência ou o retorno das mães ao mercado de trabalho são fundamentais. Iniciativas financeiras que ajudem no acesso ao cuidado infantil podem fazer muita diferença para que as mulheres consigam continuar trabalhando e mantendo sua autonomia financeira.
Maitê Freitas
O trabalho invisível do cuidado é muito oneroso. Então, mães solos poderiam receber auxílio governamental, e ter a possibilidade de receber um acompanhamento terapêutico. Eu acho que essas coisas garantiriam um pouco de contorno financeiro, porque a maior preocupação da maternidade solo é esse senso de sobrevivência, de saber se vai conseguir pagar as contas do mês. Essa sensação de estar sempre precisando de algo é desgastante.
Vanessa Lopes
Precisamos ter mais espaços para as crianças estarem além da escola, porque hoje a minha única rede de apoio é a escola. Semana passada, por exemplo, a escola da minha filha teve um recesso, e eu precisei chamar a minha mãe, que mora em outra cidade, para me ajudar.
É preciso ter políticas públicas de saúde mental para as mães, porque todas as mães que eu converso estão, como eu, esgotadas. Amam seus filhos, quiseram seus filhos, mas estão esgotadas.
A maternidade não deveria ser solitária
Para Nana Lima, o trabalho do cuidado deve ser garantido como um direito, ao passo que a maternidade sem sobrecarga deve ser analisada por meio de políticas públicas e de mudanças no pensamento social em relação à responsabilidade do cuidado.
Sobre isso, ela propõe o seguinte questionamento: “em que condições essas mães estão para poder maternar e vislumbrar um futuro mais digno e com mais direitos garantidos para ela e seus filhos?”.
“Pensar no futuro do país é pensar nessas mães e nas novas gerações que estão sendo criadas por essas mulheres”, resume.
O assunto é complexo e deve ser discutido a partir das diversas realidades vividas pelas mães brasileiras. Mas há um entendimento central: “a maternidade transforma profundamente a vida de uma mulher, mas não pode ser tratada como uma responsabilidade individual”, conforme afirma a entrevistada Sarah Nascimento.