Mulheres negras produzem 44% do trabalho de cuidado no país
Pesquisa analisa sobrecarga das mulheres nas tarefas domésticas e de cuidado e destaca desigualdades de gênero, raça e classe
Por Beatriz de Oliveira
24|03|2026
Alterado em 24|03|2026
As mulheres são as grandes responsáveis pelo trabalho de cuidado no país: somam quase 80% de todos os serviços não remunerados de tarefas domésticas e amparo aos familiares. As mulheres negras são ainda mais sobrecarregadas: produzem 44% dessas atividades, apesar de serem 24% da população.
Esses dados, do estudo “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, refletem como a divisão desigual do trabalho de cuidados condiciona mulheres a ciclos de empobrecimento e exclusão, restringindo suas possibilidades educacionais, profissionais, de autonomia econômica e de participação política.
Segundo definição do governo federal, o trabalho de cuidado envolve tarefas como a preparação de alimentos, limpeza, gestão e organização da casa, bem como as atividades de assistência, apoio e auxílio diários para pessoas com diferentes graus de dependência.
De acordo com o Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados do Brasil, o cuidado pode ser definido como um trabalho cotidiano de produção de bens e serviços necessários à sustentação e reprodução da vida humana, da força de trabalho, das sociedades e da economia e à garantia do bem-estar de todas as pessoas.
Assinada pelos pesquisadores Jordana Cristina de Jesus, Simone Wajnman e Cássio Turra, a publicação analisa as Contas Nacionais de Transferência de Tempo (CNTT), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2015. Os dados revelam o tempo dedicado aos cuidados a membros dos lares brasileiros. De acordo com o estudo, o termo transferência de tempo refere-se à quantidade de horas, sejam elas diárias ou semanais, que uma pessoa cede do seu próprio tempo para realizar atividades das quais outras pessoas irão se beneficiar.
Dados mais recentes confirmam o cenário descrito pelas pesquisadoras. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua 2022 mostrou que, naquele ano, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas.
No âmbito das políticas públicas, o governo federal decretou em 2024 a Política Nacional de Cuidados, destinada a garantir o direito ao cuidado, por meio da promoção da corresponsabilização social entre homens e mulheres pela provisão de cuidados.
Nesse sentido, as pesquisadoras apontam que essa política deve priorizar grupos sociais com maiores necessidades. O que se traduz, por exemplo, na disponibilização de mais vagas de creche e pré-escola, escola em tempo integral, serviços de cuidado no contraturno e apoio à atenção domiciliar para pessoas idosas nos territórios com alta incidência de jovens cuidadoras.
Desigualdades do cuidado
Foi visto, por exemplo, que meninas de 10 a 14 anos produzem mais cuidados do que qualquer grupo etário de homens. A desigualdade de gênero e a falta de responsabilidade dos homens nesse âmbito são evidentes: eles consomem mais cuidados do que produzem ao longo de suas vidas.
Além das desigualdades de gênero e raça, as disparidades de classe também são nítidas: mulheres de baixa renda dedicam mais horas ao cuidado não remunerado. Isso se explica pelo fato de elas enfrentarem maiores restrições no acesso a serviços básicos, como energia elétrica, água encanada e gás de cozinha, além de terem menos disponibilidade de itens que facilitam o trabalho doméstico, como eletrodomésticos e refeições prontas.
Pontua-se ainda que a escolaridade, apesar de diminuir disparidades, não elimina o impacto das desigualdades estruturais. “Conclui-se que a sobrecarga feminina perpetua ciclos de exclusão social, reforçando a necessidade de políticas públicas que promovam a corresponsabilidade social nos cuidados e enfrentem desigualdades interseccionais de forma equitativa e progressiva”, lê-se.
A cor de quem cuida
“As mulheres negras, da adolescência à velhice, são as protagonistas na provisão desses cuidados no país. As mãos que cozinham, lavam, passam, assistem crianças e pessoas idosas são primordialmente negras”, argumentam as pesquisadoras.
As mãos que cozinham, lavam, passam, assistem crianças e pessoas idosas são primordialmente negras
– pesquisadoras do estudo ‘Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil’
De acordo com o estudo, uma em cada três mulheres negras transfere mais de 20 horas semanais de trabalho doméstico para os membros de seu domicílio, configurando-se como o cenário mais comum para esse grupo. Em contraste, para as mulheres brancas, a categoria de 0 a 10 horas semanais é a mais frequente, representando 35% delas.
Ao analisar os dados referentes a homens brancos, a desigualdade é ainda maior: enquanto representam 21,5% da população, são responsáveis apenas por 8,8 % da produção anual de cuidados. Nota-se ainda que o trabalho de cuidados produzido por meninas e mulheres negras de 10 a 19 anos ultrapassa toda a dedicação acumulada dentro do grupo de homens brancos entre os 30 e os 59 anos.
As pesquisadoras sublinham que esse cenário reflete a herança histórica da escravidão, num contexto em que mulheres negras foram submetidas à condições de exploração e precariedade. Isso ajuda a explicar o porquê de essas trabalhadoras são as mais sobrecarregadas e desvalorizadas atualmente. Ao olhar para aquelas com baixa renda, essa jornada se intensifica, já que elas geralmente têm menos acesso a serviços públicos de cuidado.
Tal realidade limita as possibilidades desse grupo de investir em educação e se engajar em empregos mais qualificados e bem remunerados. “A interseção dessas dimensões resulta em um ciclo de vulnerabilidade socioeconômica, em que a sobrecarga de trabalho de cuidado restringe a autonomia financeira e a participação política dessas mulheres”, lê-se.
O trabalho do cuidado em diferentes faixas etárias
A pesquisa revela que a faixa etária de 25 a 39 anos representa o pico da produção de cuidados entre as mulheres. Nota-se que esse grupo representa 11,8 % da população e é responsável por 25,6 % dos cuidados produzidos no país.
Ao produzirem quase três horas por dia a mais do que consomem de cuidado, as mulheres por volta de seus 30 anos de idade podem ter impactos na vida profissional devido ao aumento das responsabilidades domésticas. Nesse sentido, os efeitos das duplas e triplas jornadas são visíveis, já que as desigualdades de gênero se intensificam durante os períodos em que as mulheres estão mais engajadas com a maternidade.
Para além disso, ao observar as faixas etárias mais avançadas, entre 65 e 74 anos, as mulheres, especialmente as negras, continuam contribuindo significativamente ao assumir tarefas domésticas e de cuidado de familiares.
Segundo a publicação, “isso pode estar relacionado à falta de infraestrutura de cuidado no Brasil, em que muitas vezes o cuidado de pessoas idosas ou netos é transferido para as mulheres mais velhas da família, especialmente em famílias empobrecidas”.
Em paralelo, durante toda a vida os homens consomem mais trabalho de cuidados do que produzem. Entre 30 e 34 anos, exercem 2,4% de todo o trabalho de cuidado, sendo esse o percentual máximo que homens dedicam a isso.
Outro ponto importante é o da escolaridade: quanto menor a escolaridade, mais cedo se iniciam as atividades de cuidado. Sendo assim, mulheres negras e brancas com maiores níveis educacionais apresentam menos tempo de dedicação ao trabalho doméstico não remunerado.
“Compreender como as desigualdades se manifestam em diferentes idades e em distintos grupos sociais também permite que programas de intervenção sejam ajustados para abordar as necessidades específicas em momentos críticos do curso de vida”, aponta a pesquisa.