Silêncio no Tribunal: luz, câmera, ação e sangue na TV
O 'Caso Pix' revela as entranhas de um banquete onde a dor da periferia é servida com deleite na hora do almoço, protegida por vácuos legais e financiada por um mercado que ignora o banco dos réus.
Por Eufrasia Neres
08|05|2026
Alterado em 08|05|2026
6 de maio de 2026, 10h45 da manhã.
Em Salvador, esse é o minuto em que o marulho das pisadas aceleradas dos transeuntes no asfalto quente da Avenida Sete e os gritos dos vendedores ambulantes ganham a concorrência de uma trilha sonora onipresente. Nos televisores das salas de espera, nos botecos da cidade e na maioria das casas dos cidadãos baianos, o volume sobe para receber o Alô Juca. Mas, naquela manhã de quarta-feira, a liturgia do “justiceiro do povo” sofreu uma interferência ética.
Enquanto o cronômetro da TV Aratu iniciava a contagem regressiva para o programa, o apresentador não estava no camarim fazendo os ajustes para entrar no ar. Marcelo Castro ocupava um assento no banco dos réus do Tribunal de Justiça da Bahia. A Justiça começava a colher o depoimento dos acusados de desviar mais de 400 mil reais em doações via Pix – dinheiro que deveria ser destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade, mas que tomou caminhos indevidos.
No vácuo deixado pelo titular, a imagem que preencheu a tela trouxe uma simetria doméstica perturbadora. Quem assumiu o microfone foi Daniela Mazzei, esposa de Castro. A substituição, contudo, ia além do companheirismo matrimonial. Mazzei carrega no currículo a marca de ter sido citada pelo delegado Charles Leão, durante as investigações, quando o “golpe do pix” veio à tona, em março de 2023, ainda nos tempos de Record Bahia. A repórter, no entanto, negou qualquer envolvimento no caso.
Ali, diante das câmeras, operava-se um fenômeno raro na comunicação brasileira: a esposa de um réu assumindo o microfone para manter vivo o programa do marido, enquanto este não explicava ao juiz por que a dor de mães periféricas teria servido de isca para um suposto enriquecimento ilícito. Mazzei não era uma estranha ao formato; sua carreira, forjada em programas do mesmo gênero na emissora vizinha, conferia-lhe a técnica necessária para conduzir a narrativa com a naturalidade que a grade exigia. Naquela manhã, a lógica da audiência e a liturgia do tribunal seguiam trilhos paralelos: enquanto a Justiça analisava o desvio de doações, a TV Aratu seguia exibindo um programa cujo faturamento não foi abalado pelo banco dos réus. No mercado do sensacionalismo, o intervalo comercial e o veredito judicial habitam dimensões distintas.
Estender a presença de Marcelo Castro na grade não foi um movimento de última hora, tampouco uma reação espontânea ao sucesso de público. Em março de 2026, exatos dois meses antes da audiência judicial, a TV Aratu oficializou a ampliação do Alô Juca. Ao antecipar o início do programa para as 10h45, a emissora não apenas ignorava o cerco judicial que se fechava sobre o seu principal ativo comercial, mas dobrava a aposta nele. Enquanto o Estado cumpria o rito lento de marcar uma audiência para tratar de crimes de estelionato e lavagem de dinheiro, o mercado da comunicação dava ainda mais palco às cenas de horror do meio dia.
O silêncio, contudo, foi a tônica no Fórum Criminal de Salvador. No dia 7 de maio, ao contrário da palavrosidade e dos deboches diários diante das câmeras, Marcelo Castro e Jamerson Oliveira, escolheram a mudez como estratégia. Após o juiz Waldir Viana negar sucessivas manobras da defesa para adiar a audiência – que incluíram a alegação de uma testemunha incomunicável e áudios supostamente inaudíveis – os réus mantiveram-se cabisbaixos. Para a acusação, as tentativas de adiamento foram “manobras de procrastinação” em um caso onde 75% das doações (cerca de R$ 407 mil) nunca chegaram às 12 famílias vitimadas.
Diante do rastro de notas fiscais e depoimentos, o que se descortina em Salvador é um banquete de vampiros: um ecossistema onde a dor de quem nada tem serve de alimento para o lucro de quem tudo ostenta.
Há um deleite coletivo, quase obsceno, em ver a tragédia humana servida na hora do almoço, mastigada entre um intervalo comercial e outro, enquanto as instituições parecem observar a cena da cabeceira da mesa. Quase uma abstração “black mirror” ou cena surrealista de Luís Buñuel.
A famosa cena de “O Fantasma da Liberdade” (1974), dirigido por Luis Buñuel traz personagens que conversam educadamente enquanto defecam e, quando sentem fome, pedem desculpas para comer a sós em um pequeno banheiro.
Para a assistente social e pesquisadora Carla Akotirene, doutora em Estudos de Gênero, Mulheres e Feminismos (UFBA) e uma das principais vozes brasileiras sobre interseccionalidade, esse cenário expõe o “cinismo da democracia de direito”. Em depoimento ao portal Nós, Akotirene observa que o réu usufrui de uma benevolência institucional negada às suas próprias personagens, exploradas por ele na TV. “Ele tem direito de passar por toda uma ritualística processual, adiar o julgamento, obstruir de todas as formas, enquanto continua tendo audiência”, afirma. Para a intelectual, pessoas negras da periferia não possuem a mesma validade moral perante o sistema: “As mães de família não têm a sua fala legitimada no que diz respeito à inocência de seus filhos, nem o direito à ritualística de passar pela audiência de custódia, poder responder em liberdade – tudo o que ele prega no que diz respeito aos nossos sentenciamentos como culpados”. Segundo Carla, a justiça deveria aplicar ao apresentador a mesma prerrogativa imposta às pessoas negras que passam pela audiência de custódia: “Tinha que usar tornozeleira, tinha que se recolher às 22 horas”.
A engrenagem desse sistema, no entanto, não gira sozinha; ela é lubrificada por um vácuo regulatório nacional. A pesquisadora Mabel Dias, integrante do Intervozes (Coletivo Brasil de Comunicação Social) e especialista em direitos humanos e democratização da comunicação, explica que essa blindagem comercial só prospera porque “não há uma fiscalização efetiva por parte do Ministério das Comunicações”. Para Mabel, as emissoras são cúmplices diretas do fenômeno: “Lucram com esses programas sensacionalistas, que exploram os dramas humanos para obter lucro e audiência”. Mabel recorda que a falta de rigor é tamanha que o próprio Estado brasileiro chancela figuras do gênero, citando que “Datena, um notório apresentador de programa policialesco, ganhou um programa em uma emissora pública, que é a TV Brasil, mesmo depois de todos os protestos dos movimentos sociais”.
Na visão da comunicadora,o caso é o sintoma de um país onde “falta colocar em prática as leis existentes para regular a mídia e também atualizar essa legislação”, mencionando o Código Brasileiro de Telecomunicações.
Contudo, quando o Estado se move, parece fazê-lo para atender às demandas de mercado. É o caso da recente Lei nº 15.325, de janeiro de 2026, que regulamentou a profissão de multimídia. Ao oficializar a polivalência técnica, a lei ignora a responsabilidade editorial e a proteção contra violações recorrentes nos veículos televisivos, como a exposição indevida de menores e a flagrante violação do direito de imagem de cidadãos que, muitas vezes, são sentenciados pela câmera antes mesmo de chegarem à delegacia.
O silêncio dos “inocentes”
Enquanto os réus se mantinham em silêncio no tribunal, uma nova fatura judicial chegava à porta do apresentador Marcelo Castro: uma multa superior a R$ 200 mil por descumprir, durante meses, uma decisão de direito de resposta. O caso, movido pelo advogado Mateus Nogueira da Silva, revela as entranhas do método: o advogado foi alvo de informações mentirosas em maio de 2025 e, embora o programa afirmasse que os “microfones estavam abertos”, a resposta só foi ao ar em fevereiro de 2026, após a multa se acumular. É a prova documental do descaso com os princípios do jornalismo, da ética e da moral.
Essa “vampirização” da notícia não é um debate novo. Já em 2019, o Intervozes, junto a organizações como o Instituto Alana e a Artigo 19, acionou o Ministério Público Federal contra anunciantes de programas policialescos. O argumento era central: as marcas que financiam esses espaços são solidárias às violações de direitos humanos ali praticadas.
Se o “Caso Pix” choca pela audácia financeira, ele é apenas o desdobramento lógico de um sistema que normalizou a humilhação pública como entretenimento lucrativo.
Enquanto o processo caminha agora para as alegações finais e a sentença, a televisão baiana já deu o seu veredito: as luzes do estúdio seguem acesas e o horário permanece ampliado, garantindo que a próxima dose de audiência seja servida pontualmente, com a naturalidade de quem nunca precisou se sentar no banco dos réus.