Maternidade no mercado de trabalho: por que mães ainda são excluídas
Entre dados e experiência própria, esta coluna mostra como o mercado de trabalho penaliza mães, especialmente mulheres negras, e as empurra para o empreendedorismo por necessidade, não por escolha
02|04|2026
- Alterado em 09|04|2026
Por Jo Melo
Fiz uma pesquisa há um tempo para a produção de um artigo sobre gênero e maternidade no mercado de trabalho. Apesar de ser mulher e sofrer na pele a injustiça desse sistema, depois de ler os dados e abrir links, me senti pior do que já estava. Não é para menos, se o mercado de trabalho é cruel demais com quem é mulher, imagina se você é mãe.
Temos poucas mulheres nos cargos de liderança dentro das empresas. Segundo a Diversitera, enquanto elas ocupam 70% dos cargos operacionais, apenas 35% são de liderança. Na diretoria executiva, caem para 28%, e entre CEOs, para 17%. E essas poucas são majoritariamente brancas: há 8 a 10 vezes mais mulheres brancas do que negras nas empresas.
Dados do Great Place to Work mostram que há de oito a dez vezes mais mulheres brancas nas empresas do que mulheres pretas ou pardas, e 71% da empresa tem cerca de 10% de mulheres negras em posições de liderança.
Isso nos leva a pensar que além de patriarcal, a questão do trabalho envolve também o aspecto social e racial. Uma das coisas que eu sempre bato na tecla é que: não somos todos iguais. Por mais que a gente lute pela igualdade, não somos iguais.
Mães merecerem as mesmas oportunidades
Me esforço para imaginar um mundo sem o patriarcado, um mundo onde homens e mulheres tivessem sido criados sem a imposição do gênero, se a cor da nossa pele e a nossa questão social não interferissem na nossa vida, onde todos seríamos felizes como aqueles panfletos de igreja. É… eu só imagino mesmo, isso não aconteceu e não sei se vai acontecer tão cedo. Ser pessimista? Não, eu sou realista.
Nós movemos o mundo por meio de pequenas mudanças. Coletivos, grupos e pessoas independentes conseguem fazer bem esse papel. Mas, por que eu dei essa volta toda ao mundo pra falar sobre maternidade e mercado de trabalho? Porque tem tudo a ver. Como vamos falar sobre igualdade se sequer entendemos a raiz da desigualdade?
Ponto mais vulnerável dessa estrutura
Em uma pesquisa realizada pela MindMiners com mais de 500 mulheres que são mães sobre o mercado de trabalho, 34% estão em regime CLT, seguido de 24% sem trabalhar, as demais porcentagens estão divididas entre PJ e empreendedorismo. Os principais fatores da baixa de mulheres mães no mercado se dão pelo preconceito. Sim, muitas mulheres passam por entrevistas um tanto constrangedoras. Algumas pessoas perguntam com quem o filho vai ficar, se tem ajuda, se está na escola, e um “qualquer coisa te avisamos” passa a ser uma frase muito comum.
Parte dessa falta são mulheres que, por conta da maternidade, acabaram empreendendo. O mais engraçado, ou melhor, triste, nessa situação é que muitas deixaram os seus empregos, até estáveis, para poderem ficar mais perto dos filhos, seja por conta do ambiente preconceituoso com mães, seja pelo patriarcado comendo solto dentro das empresas, seja por conta dos baixos salários e falta de infraestrutura para receber essas mulheres.
Segundo um relatório produzido pela MindMiners: “30% das mulheres declararam ter sofrido algum preconceito por causa da gravidez no ambiente de trabalho. Outras 28% tiveram problemas psicológicos por conta de pressão no trabalho e estabilidade.” Ou seja, o empreendedorismo materno se dá mais pela necessidade do que pelo próprio sonho em si. Romantizam esse modelo de sustento, mas na verdade, não é realizado nenhum estudo sobre o porquê de essas mulheres estarem abandonando o mercado de trabalho e ficando cada vez mais sobrecarregadas em casa.
Eu sou uma das mulheres que preferiu sair do trabalho, mesmo tendo dificuldades financeiras. Não tinha com quem deixar meu filho quando ele nasceu, e quando estava grávida cheguei a ouvir da minha chefe na época: “Depois que você engravidou, não serve mais pra nada”.
Esgotamento materno
Tem a amamentação, o puerpério, nosso corpo, a sociedade, a casa, a família e a vida. Já levei meu filho bebê duas vezes para o trabalho, enfrentando cara feia e possíveis “penalidades” depois. Então, resolvi fazer freela, estar perto do meu filho, amamentá-lo e não ouvir mais que eu era imprestável.
Se as empresas te consideram menos capaz quando se é mulher, quando você é mãe parece que sua capacidade diminui drasticamente, é como se não prestássemos para mais nada, literalmente.
Precisamos de uma reforma, de empresas humanas que saibam e tenham em mente que uma mãe é tão competente quanto uma que não é. Não queremos ser deixadas de lado, ouvir piadas na volta depois do parto, ou estar com medo de sermos mandadas embora depois da estabilidade por um mês. É preciso ter empresas que paguem os mesmos salários para cargos iguais. Reivindicamos sermos vistas pelo nosso currículo e nossa competência, mas não nos deixam.
Deixo abaixo relatos reais que postei na página do Mães que Escrevem, e que resumem todo esse texto e deixam um quê de revolta, impotência e desejo de mudança:
Entrevista de emprego:
– Você tem filhos?
– Sim, três.
– Como você vai trabalhar?
– Eles vão para a escola.
– Mas aí fica complicado, né!?
– Meu senhor, a pergunta correta seria, “como eles vão comer, morar, vestir, viver se eu não trabalhar?”
– Okay, entraremos em contato!
Matrícula da creche:
– Trabalha em qual período?
– Estou desempregada, procurando emprego.
– Precisa de carteira assinada para conseguir a vaga.
– Moça, como vou arrumar emprego com um bebê fora da escola?
– Não temos vagas nesse caso.
Conselho Tutelar:
– Onde essas crianças ficam à noite?
– Em casa, eu faço bicos em bares e eles só abrem à noite.
– Abandono de incapaz é crime.
– …
Maternidade romantizada
Tudo isso tem a ver com a romantização da maternidade também. É sempre o mesmo discurso, depois que somos mães, parece que o nosso papel social muda, como se mudassem a nossa identidade e nos colocassem em potinhos etiquetados. Não estamos mais no século passado onde nossas avós e mães eram obrigadas a ficarem em casa para cuidar de nós.
Queremos autonomia financeira e também condições de ir trabalhar sossegadas; vaga em creche para nossos filhos e salário família. É pedir demais? Para alguns sim, afinal “quem mandou abrir as pernas?”, mas o que a sociedade não entende é que esse ser social que são nossos filhos merecem ter direitos, coisa que o Estado parece não estar nem aí.
Existe uma teia enorme de problemáticas que se eu for nomear aqui, vira um livro. Uma coisa puxa a outra, mas nenhuma vai para a frente. São tantas as causas e as mudanças que precisam acontecer. Não é fácil, mas seguimos lutando para sermos vistas como mulheres, como seres parte dessa sociedade. Como profissionais competentes, que estamos lutando para termos o tal reconhecimento.
Vagas de emprego: outra questão. Poxa vida, 28,3 milhões de pessoas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), estão sem trabalho e, se formos fazer um recorte nesse número, pode ter certeza que mulheres negras, indígenas, de baixa renda e com escolaridade mínima, estão com uma parte grande dessa pizza que cresce cada vez mais.
Pois é, o mercado de trabalho é cruel demais com mães.
Jo Melo É mãe, editora e fundadora do Instituto Mães que Escrevem. Foi diagnosticada com autismo e TDAH na idade adulta. Escreveu e publicou os livros Os Cinco Sentidos e Hipérboles, é organizadora da coletânea Escrevivências Maternas e participa de diversas antologias. @jomelo.escritora
Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.
Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.
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