flores em ato contra feminicídios

Mais de 1.500 feminicídios em 2025: como chegamos a esse cenário? 

Especialistas contextualizam os dados de violência de gênero e os caminhos para efetividade do enfrentamento a esse cenário

Por Beatriz de Oliveira

26|03|2026

Alterado em 26|03|2026

Entre 2015 e 2025, ao menos 13.703 mulheres tiveram suas vidas interrompidas por feminicídios no país. A grande maioria dos crimes é cometida por companheiros, ex-companheiros ou outros familiares. Parte significativa das vítimas tinha medidas protetivas no momento dos assassinatos. Mesmo assim, o feminicídio segue avançando,  em meio a uma sociedade que naturaliza e se estrutura a partir do ódio às mulheres, e que ainda falha em protegê-las de forma efetiva.  

A fim de contextualizar o que nos levou a esses números alarmantes de feminicídios, o Nós, mulheres da periferia conversou com pesquisadoras e especialistas sobre o tema da violência de gênero. Elas pontuam como a cultura misógina e a ascensão de red pills impacta nesse cenário, bem como a conexão com o aumento de outras agressões a mulheres, como violência psicológica, lesão corporal e estupro. 

Entre as entrevistadas está Beatriz Schroeder, graduada em Administração Pública e pesquisadora no Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Os números de feminicídios e homicídios de mulheres são alarmantes porque representam a expressão mais letal de uma mentalidade machista, que, na verdade, permeia a sociedade em muitas camadas”, pontua.

Não se trata de casos isolados. Lígia Batista, ativista, advogada e diretora de desenvolvimento institucional do Mapa do Acolhimento, destaca que “o alto índice de feminicídios é apenas a ponta do iceberg. O feminicídio não é um evento isolado, mas o desfecho letal de uma sequência de violências que muitas vezes nem são reconhecidas como tal”.

Em consonância, Regina Célia, cientista política e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, alerta que “quando há aumento nos registros de agressões, ameaças, estupros e outras formas de violência, isso indica que estamos diante de um ambiente social que ainda tolera e naturaliza a violência de gênero”.

Os números de feminicídios e homicídios de mulheres são alarmantes porque representam a expressão mais letal de uma mentalidade machista

Beatriz Schroeder

O cenário da violência de gênero 

Abordar o contexto da violência de gênero, passa por entender as desigualdades estruturais na socialização de homens e mulheres. Lígia Batista, do Mapa do Acolhimento, explica que isso se traduz em um cenário em que “homens são ensinados a ocupar o espaço público e a seguir um padrão que associa masculinidade à agressividade, controle e dominação, e mulheres são incentivadas a colocar suas relações íntimo-afetivas no centro de suas vidas a qualquer custo, muitas vezes em detrimento de si mesmas”.

Segundo ela, apesar de haver um avanço no debate sobre igualdade de gênero, há um crescimento de discursos ultraconservadores, que colocam em evidência falas de ódio contra mulheres. Isso se amplifica ainda mais no contexto das redes sociais, nas quais disseminam-se conteúdos red pill.

“Esse cenário contribui para a legitimação da violência e ajuda a explicar o agravamento dos casos e as novas roupagens da violência baseada em gênero que temos visto ultimamente”, destaca a advogada.

Pesquisas confirmam o aumento da violência contra mulher em diferentes níveis. Segundo o Anuário de Segurança Pública, em 2024, foram registradas 257.659 mulheres vítimas de lesão corporal no contexto da Lei Maria da Penha. Já no caso do crime de ameaça, foram 747.683 vítimas.

Os dados mostram que os feminicídios não surgem de forma repentina. “Esses números evidenciam que há um contingente muito grande de mulheres vivendo situações de violência antes que ela atinja o nível extremo”, argumenta Beatriz Schroeder. 

©Marcelo Camargo/Agência Brasil

A pesquisadora acrescenta ainda que o aumento de feminicídio e de outros crimes de violência contra a mulher mostram que, além do crescimento da violência em si, há maior notificação desses casos. Nota-se que em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios, um um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo a nota técnica “Retratos do Feminicídio no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 

Mulheres negras são a maioria das vítimas 

Essa mesma pesquisa indicou que mulheres negras são os maiores alvos do feminicídios. Entre 2021 e 2024, elas foram 62,6% das vítimas desse tipo de crime. Esse dado evidencia como a desigualdade racial e as estruturas que perpetuam a lógica escravocrata impactam no cotidiano dessas mulheres. 

No Brasil, a violência de gênero também tem cor e território. “Isso revela a intersecção entre racismo estrutural, desigualdade de gênero e desigualdade social. As mulheres negras estão em grande parte dos territórios mais vulnerabilizados, com menor acesso a serviços, proteção e justiça. E ainda temos o agravante da desvalorização social que impacta diretamente na forma como as denúncias são recebidas e tratadas”, pontua Regina Célia, do Instituto Maria da Penha.

Mulheres negras também são mais afetadas por outros tipos de violência: em 2024, representaram 55,6% das vítimas de estupro, por exemplo. Para Lígia Batista, esse cenário está relacionado ao racismo estrutural que condiciona essas mulheres a uma maior vulnerabilidade.

“Há uma desvalorização histórica da vida das mulheres negras, que se reflete tanto na naturalização da violência contra essa parcela da população, quanto na menor resposta institucional diante dessas situações”, diz.

Há uma desvalorização histórica da vida das mulheres negras, que se reflete na naturalização da violência contra essa parcela da população

Lígia Batista

20 anos da Lei Maria da Penha 

Em agosto de 2026, a Lei Maria da Penha completará 20 anos em vigor. Ao criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, a legislação se consolidou como uma das mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência de gênero.

“A Lei Maria da Penha representa um marco civilizatório do Brasil. Transformou a violência doméstica de um assunto privado em uma questão de direitos humanos e de responsabilidade do Estado. Criou mecanismos de proteção, estruturou políticas públicas e deu visibilidade a uma realidade historicamente silenciada”, destaca Regina.

Lígia Batista, por sua vez, pontua que a lei inovou ao tipificar diferentes formas de violência: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial, bem como ao trazer uma abordagem centrada na vítima, a partir de políticas de prevenção, acolhimento e proteção, para além da punição ao agressor.

No entanto, nem tudo que foi definido na lei se tornou realidade para todas as mulheres que procuram ajuda. “Vinte anos depois, a lei ainda enfrenta desafios importantes de implementação, especialmente no que diz respeito à capilaridade dos serviços, à integração das políticas públicas e ao acesso efetivo das mulheres, especialmente as negras e mais vulnerabilizadas, aos seus direitos”, alerta.

Caminhos para efetividade da proteção às mulheres 

Amparado por outras legislações firmes nesse âmbito, como a Lei do Feminicídio, o Brasil ainda enfrenta dificuldades de implementação das estratégias de proteção à vida das mulheres. A nota técnica “Retratos do Feminicídio no Brasil”, mostrou que entre 2021 e 2025, 13,1% das vítimas tinham Medidas Protetivas de Urgência (MPU) vigentes. 

Entre os problemas de implementação das leis, está a desigualdade territorial no amparo às vítimas. De acordo com a pesquisa, 70% dos municípios com menos de 100 mil habitantes não possuem nenhum serviço especializado para atender mulheres em situação de violência.

“O principal problema hoje não é a ausência de legislação, mas a desigualdade na sua implementação. Ainda temos uma rede de atendimento que não chega de forma igual a todos os territórios”, afirma Regina Célia.

O principal problema hoje não é a ausência de legislação, mas a desigualdade na sua implementação

Regina Célia

Já Beatriz Schroeder, do Fórum de Segurança Pública, alerta que “mesmo nos lugares em que os serviços existem, ainda há desafios significativos relacionados à qualidade do atendimento. Muitas vezes, as mulheres encontram barreiras institucionais, falta de preparo dos profissionais, atendimento revitimizador ou uma escuta que não acolhe adequadamente a gravidade da situação”.

Outra questão a ser resolvida é a articulação da rede de atendimento. As entrevistadas explicam que é necessária uma estratégia integrada entre segurança pública, justiça, saúde e assistência social.

Para Beatriz, a efetividade dessas políticas passa por “ampliar e interiorizar os serviços da rede de proteção, investir na formação dos profissionais que atendem essas mulheres e melhorar os mecanismos de monitoramento e resposta rápida, especialmente nos casos de maior risco”.

Mudanças recentes no enfrentamento à violência 

No tema do enfrentamento à violência contra a mulher, vale abordar também a discussão de novas legislações e mecanismos que buscam contribuir com a redução dos índices alarmantes de agressões.

No dia 18 de março, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei (PL) nº 2942/2024 que permite à Justiça determinar o uso imediato de tornozeleira eletrônica pelo agressor de mulheres em situação de violência doméstica e familiar em casos de alto risco à vida das vítimas. O texto aguarda sanção presidencial. 

Outro projeto discutido no Congresso Nacional é o PL 3880/2024, que define penas mais pesadas para o vicaricídio, crime que consiste no assassinato de filhos ou parentes como forma de punir ou atingir mulheres. O texto foi aprovado no Senado no dia 25 de março e aguarda sanção presidencial. 

Já em 24 de março, os senadores aprovaram o PL 896/2023, que criminaliza a misoginia e insere o delito entre os crimes de preconceito ou de discriminação previstos na Lei do Racismo. O projeto ainda precisa passar por votação na Câmara dos Deputados. 

“A penalização de condutas misóginas representa um passo importante para o debate sobre a violência de gênero. A partir do momento em que o Legislativo propõe a criação de ferramentas jurídicas específicas para combater práticas que hoje não são reguladas por outras disposições do ordenamento jurídico brasileiro, abre-se não apenas uma oportunidade de manter o debate público aquecido, mas também de ampliar as respostas do Estado para combater diferentes expressões de violência de gênero”, analisa Lígia Batista.