Mulher indígena de cabelo curto segura um cachimbo, em pé em área de mata. Ela usa vestido estampado e colares de sementes, com vegetação densa ao redor.

Arte, território e resistência: mulheres indígenas que reinventam o presente

Trajetórias de mulheres indígenas articulam ancestralidade e criação contemporânea para disputar narrativas e afirmar seus direitos no Brasil de hoje

Por Amanda Stabile

15|04|2026

Alterado em 15|04|2026

Da aldeia ao centro das cidades, mulheres indígenas têm ocupado diferentes campos da arte e da comunicação para afirmar identidades, disputar narrativas e fortalecer a luta por direitos. Educadoras, artistas visuais, musicistas e lideranças políticas, elas articulam saberes ancestrais e linguagens contemporâneas para denunciar violências históricas, defender seus territórios e produzir outras formas de existência no presente.

Nomes como Daiara Tukano, Glicéria de Jesus da Silva, Jerá Guarani, Maria Preta e Yacunã Tuxá, revelam a diversidade dessas trajetórias, que passam pela educação, pelo hip-hop, pelo audiovisual e pelas artes visuais. Em comum, seus trabalhos transformam experiências individuais e coletivas em produção cultural e política, reposicionando os povos indígenas no centro do debate contemporâneo. Conheça mais sobre elas:

Daiara Tukano

©Arquivo pessoal

Daiara Tukano é uma artista visual, ativista, educadora e comunicadora do povo Tukano (Yepá Mahsã), nascida em São Paulo (SP) em 1982. Sua trajetória une arte e militância, com atuação em espaços culturais, acadêmicos e políticos, sempre voltada à defesa dos direitos indígenas e à valorização da memória e da espiritualidade de seu povo. Formada em Artes Visuais e mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, também atuou na Rádio Yandê e em instâncias de representação cultural indígena no Brasil.

Sua produção artística transita entre muralismo, pintura e instalações, conectando saberes ancestrais e linguagens contemporâneas. Em obras como grandes murais urbanos, Daiara transforma a arte em ferramenta de demarcação simbólica e política, propondo novas formas de imaginar os povos indígenas no presente. Seu trabalho busca romper estereótipos e reposicionar as artes indígenas no centro do debate cultural, mostrando que elas não pertencem ao passado, mas são vivas, diversas e fundamentais para pensar o mundo hoje.

Glicéria de Jesus da Silva

©Elisa F Garcia

Glicéria Tupinambá é uma artista, professora, pesquisadora e liderança indígena do povo Tupinambá, nascida na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia. Sua atuação articula arte, educação e luta política, com destaque para a defesa dos direitos indígenas — especialmente das mulheres — e para o fortalecimento da organização comunitária na aldeia Serra do Padeiro. Ao longo de sua trajetória, também passou a atuar em espaços nacionais e internacionais, levando as pautas de seu povo para debates mais amplos.

Seu trabalho é marcado pela reconstrução do manto tupinambá, peça ancestral que, para ela, não é apenas um objeto, mas uma ligação espiritual entre território, memória e cosmologia indígena. A partir dos anos 2000, Glicéria passou a pesquisar e recriar esses mantos com base em saberes tradicionais, envolvendo sua comunidade nesse processo e questionando a presença dessas peças em museus europeus. Assim, sua produção artística se torna também uma forma de resistência, conectando cultura, ancestralidade e a luta pela terra.

Jerá Guarani

©Isabela Alves/Agência Mural

Jerá Guarani é uma educadora, agricultora e liderança do povo Guarani Mbya, nascida na Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo (SP). Sua trajetória é marcada pela atuação na educação indígena e na defesa dos direitos territoriais, tendo se formado em Pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP) e atuado como professora e diretora em escola indígena. Ao longo dos anos, tornou-se uma das principais vozes na luta pela demarcação de terras e pela valorização dos saberes e modos de vida guarani.

Além da atuação educacional e política, Jerá também liderou a retomada da aldeia Tekoa Kalipety, que se tornou referência em práticas agroecológicas e recuperação ambiental, articulando conhecimentos tradicionais e alternativas sustentáveis. Sua atuação questiona modelos de desenvolvimento baseados na exploração da natureza e propõe outras formas de existência, em diálogo com a sociedade não indígena, mas mantendo a centralidade da cosmovisão guarani e da relação equilibrada com o território.

Maria Preta

©Divulgação

Maria Preta, nome artístico de Victoria Maria, é uma MC, cantora e compositora afro-indígena da região de Poá, na Grande São Paulo, cuja trajetória nasce nas batalhas de rima e no cotidiano das periferias. Ela construiu sua carreira de forma independente, rimando em trens, ruas e batalhas como a Batalha do Grau, até ganhar projeção nacional ao participar do reality Nova Cena, da Netflix, onde foi a única indígena entre os participantes.

Sua arte é profundamente atravessada por temas como ancestralidade, identidade e resistência, refletindo sua vivência como mulher preta, indígena e periférica. Em suas músicas e performances, Maria Preta transforma experiências pessoais — como a maternidade, o racismo e a vida na quebrada — em potência criativa e política, utilizando o hip-hop como instrumento de expressão, sobrevivência e transformação social.

Yacunã Tuxá

Mulher indígena com cabelos longos e lisos posa com os braços cruzados, usando um cocar amarelo simples, colar e pulseira artesanal. Ela tem tatuagens no braço e está diante de um fundo azul escuro.,

©Marcus Leoni

Yacunã Tuxá é uma artista visual, escritora e ativista indígena do povo Tuxá, nascida em 1993 e com atuação entre a Bahia e o cenário artístico nacional. Sua produção transita por diferentes linguagens — como ilustração digital, pintura, poesia e muralismo — e tem como eixo central a valorização da memória, da ancestralidade e das experiências indígenas, especialmente das mulheres. Também atua como liderança na defesa dos direitos indígenas e da população LGBTQIA+, articulando arte e ativismo como formas de resistência e afirmação identitária.

Seu trabalho dialoga com temas como território, deslocamento e pertencimento, refletindo tanto a história de seu povo quanto os atravessamentos entre aldeia e cidade. Em exposições como “Toda Árvore Tem Raiz”, suas obras propõem uma leitura sensível sobre identidade e coletividade, utilizando símbolos e narrativas que conectam espiritualidade, política e cotidiano. Ao combinar diferentes técnicas e linguagens, Yacunã constrói uma arte contemporânea que funciona como ferramenta de luta, cura e transformação social.