Um brinde a ela: caso da primeira mulher negra dona de uma vinícola no país
Com o objetivo de passar mais tempo com a filha, Miriam Santiago deixou a atuação como advogada para liderar um negócio de vinhos com experiência de afroturismo
Por Beatriz de Oliveira
05|03|2026
Alterado em 05|03|2026
Miriam Santiago ocupa com firmeza e consciência o posto de ser a primeira mulher negra dona de uma vinícola no Brasil. Ela está à frente do Sítio Rosa do Vale, em Poço das Antas (RS), no Vale do Taquari, região que abriga vinícolas e turismo rural. O empreendimento oferece variadas opções de espumantes, vinhos e sucos. Além disso, um dos diferenciais é o Samba da Uva, experiência de afroturismo.
O pioneirismo de Miriam vem acompanhado de uma série de enfrentamentos relacionados ao racismo e sexismo no meio corporativo. “Tudo o que me atravessa, eu penso que às vezes eu não devo me calar, em outras eu devo suportar, pensando em quem vai vir depois de mim. Penso que eu tenho que passar por isso para abrir o caminho para quem vem depois”, afirma.
Miriam Santiago é a primeira mulher negra dona de uma vinícola no Brasil
©divulgação
O negócio teve início em 2022, quando Miriam estava decidida a mudar de ocupação para conseguir passar mais tempo com a filha Dandara. Ela atuava como advogada e tinha um escritório em uma cidade próxima. Apesar do Sítio Rosa do Vale ocupar boa parte de seu tempo, atualmente ela consegue ter maior participação na rotina da filha, como é o caso dos momentos em que brincam juntas numa praça próxima da casa.
No sítio em que vivem, seu marido e familiares realizavam produções caseiras de vinhos e sucos para consumo próprio e vendas na cidade, em pequenas quantidades. Em seu tempo livre, Miriam ajudava nas produções, como no caso da colheita da uva, que ocorre entre dezembro e janeiro.
Daí veio a ideia de oferecer uma experiência para turistas conhecerem a produção de vinhos a partir de uma perspectiva afrocentrada. No Samba da Uva, os visitantes participam da pisa na uva com uma roda de samba. Estão inclusos também um passeio de trator até a parreira e degustação de vinhos e espumantes, além de comida típica regional.
“Eu participei de cursos e qualificações e comecei a entender que só se contava uma história sobre o turismo aqui no Rio Grande do Sul, que era um turismo mais europeu, e não se contava a história das pessoas negras. Eu senti falta disso e achei que talvez eu mesma devesse fazer isso”, relata. Com forte imigração de alemães e italianos, por exemplo, o turismo no Rio Grande do Sul é marcado por sua herança europeia.
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A construção de um negócio com protagonismo negro
O que começou sem muita pretensão logo se transformou numa experiência de sucesso. Miriam conta que a procura por seus produtos cresceu no início de 2023, quando circularam notícias sobre trabalho análogo a escravidão em algumas vinícolas da região, ao passo que as pessoas passaram a buscar alternativas de onde comprar seus produtos.
Hoje, o Samba da Uva também é produto: há espumantes e vinhos da linha. O vinho tinto suave, variação mais vendida no Brasil, é comercializado a R$ 25, com o objetivo de ser acessível e atingir clientes negros e não negros pelo país.
Com produção anual de 20 mil litros, o Sítio Rosa do Vale é feito por poucas mãos: na produção diária trabalham Miriam, o marido e a sogra. Além disso, há mais três funcionários.
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Entre resistência e afeto
A empreendedora enxerga no afroturismo e no afroempreendedorismo espaços de resistência. “O Sítio Rosa do Vale está despontando no mercado, mas eu não vejo as outras vinícolas preocupadas em pessoas negras ocupando postos ou em trazer produtos que tenham mais a cara da população brasileira”, diz.
E acrescenta: “o fato de nós, empreendedores negros, continuarmos apesar de não acessar crédito e políticas públicas que outras empresas acessam, é uma forma de resistência e de combate ao racismo”.
O fato de nós, empreendedores negros, continuarmos apesar de não acessar crédito e políticas públicas que outras empresas acessam, é uma forma de resistência e de combate ao racismo
Miriam Santiago
Miriam relata ainda que, em muitos espaços que acessa em seu meio de atuação, ainda é a única pessoa negra e percebe que as estruturas são feitas para que elas não acessem e nem permaneçam em locais de poder. “Hoje, por exemplo, eu comercializo o meu produto em algumas grandes varejistas, mas a minha permanência nesses espaços é muito difícil de ser sustentada”.
Um levantamento realizado pelo MOVER (Movimento pela Equidade Racial), mostrou que apenas 3% das posições de diretoria e liderança executiva são ocupadas por mulheres negras.
A entrevistada conta que é um embate diário de se provar sempre ser duas vezes melhor. Mas, encontra força e afeto nas mensagens de carinho que recebe das pessoas que conhecem a sua iniciativa.
Pensando nos planos para o futuro de seu negócio, o seu desejo se volta para o que a motivou a criá-lo: passar mais tempo com sua filha. Hoje, se desdobra em várias para dar conta do negócio e da pequena Dandara, e sonha em poder ter mais funcionários no Sítio para que possa trabalhar menos e viver com mais tranquilidade.
Serviço – Sítio Rosa do Vale
Endereço: Rua 10 de Novembro, Poço das Antas | RS | 95740-000
Visitação: De Segunda a Sexta das 9h às 12 e das 14h até às 19h. Sábados e Domingos com agendamento.
Contato: (51) 9586-7921
Compras online e mais informações: https://sitiorosadovale.com/