Obirin faz história como primeiro bloco feminino de samba-reggae do Recife (PE)
Criado pela cantora Ana Paula Guedes, o cortejo foi criado em 2016 e conta com 32 integrantes
Por Beatriz de Oliveira
11|02|2026
Alterado em 11|02|2026
Criado em 2019, o Obirin é o primeiro bloco de samba-reggae feminino do Recife (PE). O nome vem do iorubá e significa “mulher”. “Trabalhamos a resistência, formação de mulheres negras, militância e justiça social contra o machismo e o sexismo”, afirma a cantora Ana Paula Guedes, criadora e coordenadora da iniciativa.
O bloco é formado por 32 integrantes de diferentes idades – de crianças a idosas -, profissões e localidades, – Morro da Conceição e adjacências. “São mulheres que têm suas filhas e que as trazem debaixo do braço, para poder estar dentro do bloco e fazer um trabalho de conscientização, valorização e empoderamento”, relata.
Com 47 anos de carreira, Ana Paula é conhecida por sua atuação na cultura popular recifense. É apresentadora oficial dos carnavais, ciclos juninos e manifestações populares das comunidades. Por 20 anos, fez parte do tradicional bloco Afoxé Alafin Oyó, e até o ano passado integrou o Grupo Voz Nagô, idealizado pelo músico Naná Vasconcelos.
Referência consolidada em sua área, sentiu por um momento que precisava entregar mais à sua comunidade, daí veio a criação do bloco Obirin. “O racismo é sufocante, e a gente não se via em alguns lugares. Quando eu comecei a me ver em alguns lugares, as pessoas diziam: ‘eu quero ser como você quando eu crescer’. E essa frase é muito forte”, diz.
E acrescenta: “Hoje eu sei da importância que tem a minha imagem em cada palco que eu subo, então faço valer a história da cultura popular e afrobrasileira, falo do feminicídio, da discriminação”.
Foi com esse propósito que o Obirin foi criado: carregar e disseminar o legado feminino em Recife.
GALERIA 1/3
O pioneirismo da iniciativa
O protagonismo do bloco é das mulheres negras, mas as mulheres brancas que estejam dispostas a abraçar essa luta também são bem vindas na iniciativa. “Elas têm conhecimento de qual é esse lugar e sabem que nós, mulheres negras, somos as atrizes principais deste lugar”.
No início, apenas quatro mulheres formavam o bloco, e as integrantes usavam instrumentos emprestados de outros projetos até conseguirem comprar os próprios. Ao longo dos anos, o movimento foi crescendo e manteve o propósito de ir além da música e da dança: a proposta é ser um espaço de acolhimento e afetividade entre mulheres da região.
As atividades não se concentram apenas no período do carnaval, acontecem o ano todo, contando com oficinas de dança, percussão e confecção de fantasias. Além disso, com o aval dos moradores, as integrantes ensaiam nas ruas do bairro e guardam os instrumentos na casa de Paula, que em breve será reformada para se tornar a sede do bloco.
Enredos do bloco
Em meio à um cenário de intolerância contra religiões de matriz africana, com ataques a terreiros e insultos verbais, o enredo entoado pelo grupo em 2026 é: “Elas, o Poder e as Encruzilhadas”. A escolha trata da tradição religiosa da jurema sagrada e faz uma desconstrução da imagem estereotipada das pomba giras e embusteiras, normalmente resumidas a prostituição, cigarros e bebidas.
“Foram mulheres da década de 1950 que sofreram suas desilusões, tiveram seus amores, tiveram seus bordéis para poder receber homens e receber seu sustento, e que tinham como fundamento a jurema sagrada, que acreditamos que nos protege como guardiões no nosso cotidiano”, diz.
O cortejo estreou nas ruas no Carnaval de 2020, com o enredo “Mulher, O Útero do Mundo”, que celebrava a força da criação e o equilíbrio da vida. Em 2021, devido a pandemia, não houve carnaval, mas o grupo permaneceu ativo, distribuindo alimentos no Morro da Conceição, bairro em que se localiza o bloco.
“O Poder é Delas”, “Mulheres do Clã de Obá”, “Iyalode – as Damas da Sociedade” foram alguns dos temas tratados nos anos seguintes. “Fazemos uma construção de liberdade contra os apagamentos femininos”, resume Ana Paula.