Maria Gabriela Ferreira: a mulher que enfrentou o brilho azul da morte
O maior desastre radiológico da história do Brasil só não foi pior porque a heroína retratada em 'Emergência Radioativa' rompeu o ciclo da contaminação por césio-137 em Goiânia
Por Eufrasia Neres
13|04|2026
Alterado em 13|04|2026
Maria Gabriela entrou na sede da Vigilância Sanitária de Goiânia com uma sacola nas mãos e a convicção de que algo estava errado. Não tinha instrumentos nem formação técnica para saber ao certo, mas já havia visto o suficiente para não ignorar os sinais.
Era 28 de Setembro de 1987. Os jornais do mundo estampavam tensões internacionais e crises econômicas enquanto o Sistema Público de Saúde Estadual de Goiás estava em greve, com servidores da saúde paralisados. Em Goiânia, uma mulher alertava para um perigo invisível: o maior desastre radioativo em área urbana no mundo.
Maria Gabriela Ferreira não tinha um contador *Geiger nas mãos, mas tinha a intuição de quem lê o mundo e interpreta seus sinais.
*Contador Geiger: instrumento portátil utilizado para detectar e medir radiação ionizante, para monitorar contaminação ambiental nuclear.
Dias antes, enquanto seu marido, Devair, se encantava com o brilho azul que saía de uma pequena cápsula de chumbo adquirida em seu Ferro-Velho, Maria Gabriela começou a perceber que algo estava errado. O passarinho da casa, que costumava sempre cantar, morreu naquela mesma noite. O silêncio súbito da gaiola, chegou como um mau presságio.
GALERIA 1/1
Natural de Porto Nacional, que na época ainda pertencia ao norte de Goiás, Maria carregava a perspicácia de quem aprendeu a ler a vida antes dos livros. Entre o dia 18 de setembro, quando a cápsula aberta à marretada entrou em sua casa, e o dia 28, quando ela decidiu dar fim ao material suspeito, Gabi, como era carinhosamente chamada pelos seus, tornou-se uma sentinela solitária. Ela ligou os pontos que a ciência oficial, sem protocolos adequados à época, ignorou: o vômito dos filhos, a diarreia dos funcionários e a queimação na pele dos vizinhos.
Enquanto o Estado falhava em fiscalizar as instalações do Instituto Goiano de Radioterapia – desativadas desde 1985 –, onde o equipamento com césio-137 foi deixado sem nenhum protocolo de segurança, foi essa mulher migrante quem colaborou para a responsabilização pública. Sem batedores ou roupas de proteção e com a ajuda de Geraldo Guilherme da Silva, funcionário do ferro-velho, que colocou a peça de 22 quilos em uma sacola de estopa sobre os ombros, seguindo a pé por dois quilômetros até embarcar num ônibus de linha comum. Ali, entre trabalhadores e estudantes anônimos, Gabi viajava para salvar uma cidade que, décadas depois, ainda parece querer concretar sua memória sob o silêncio.
GALERIA 1/1
Ao chegar à Vigilância Sanitária, a sacola de Maria Gabriela não foi recebida com alarmes, mas com a desconfiança reservada àqueles que não portam títulos acadêmicos. Foram horas de espera e insistência. Ela precisou ser maior do que a dúvida dos técnicos para que, finalmente, o físico Walter Mendes Ferreira chegasse com o aparelho que confirmaria o que a sua natureza já havia anunciado: a escala de radiação era letal. O acidente, até então ignorado pelo Estado, se enquadrava em nível 5 em gravidade. Uma emergência que o Brasil ainda não sabia como administrar.
O preço de ter sido a primeira a enxergar a morte foi o de ser consumida por ela. Maria Gabriela faleceu em 23 de outubro de 1987, pouco tempo antes de completar 38 anos. No mesmo dia, a pequena Leide das Neves, sua sobrinha de 6 anos, também partiu.
Nos dias seguintes, outros dois jovens que trabalhavam no ferro-velho também morreram: Israel Baptista dos Santos (20) e Admilson Alves de Souza (18). Ao todo, 4 pessoas morreram diretamente em decorrência da radiação. O número real de vítimas ao longo dos anos, no entanto, ainda é contestado, associações estimam que dezenas de pessoas morreram posteriormente por doenças relacionadas à contaminação.
Maria Gabriela e sua sobrinha foram enterradas sob protestos, em caixões de chumbo revestidos de concreto, com o mesmo peso que cobria em culpa toda uma cidade.
Conforme analisa Célia Helena Vasconcelos em sua tese de 2019, o Estado operou o que ela denomina como “silenciamento discursivo”. Para a pesquisadora, ao focar a narrativa apenas nos aspectos técnicos e científicos do acidente, as instituições promoveram um apagamento da dimensão humana e das responsabilidades políticas, empurrando a memória de vítimas como Maria Gabriela para as margens da história oficial.
Quase quatro décadas depois, a visão excepcional de Maria Gabriela Ferreira ainda enfrenta o ostracismo. Em declaração pública feita em suas redes sociais em março de 2026, a vereadora Aava Santiago revelou horror ao descobrir que no “calendário infinito” de leis da cidade, não havia nenhuma menção às vítimas da tragédia.
Dia Maria Gabriela Ferreira
A Lei Municipal nº 11.039, sancionada em 13 de setembro de 2023, representa um marco no enfrentamento ao apagamento histórico da tragédia do Césio-137 em Goiânia. De autoria da vereadora Aava Santiago (PSB), a legislação institui o dia 23 de outubro, data que marca o falecimento de Maria Gabriela, como o Dia Maria Gabriela Ferreira no Calendário Oficial do Município. Segundo a parlamentar, a lei busca conferir centralidade à história de Maria Gabriela, reconhecendo que sua atitude decisiva, mesmo em um contexto de extrema vulnerabilidade, foi o que permitiu ao poder público identificar a contaminação.
Muito além de uma homenagem simbólica, a medida estabelece um compromisso contínuo da capital com a preservação da memória e a promoção de ações educativas e institucionais. Ao oficializar a data, o município assume o dever de incentivar o debate sobre o desastre, combatendo o estigma que ainda recai sobre as vítimas e garantindo que o gesto de responsabilidade coletiva de Maria não seja invisibilizado pelo tempo.
A mesma afirma que o esquecimento em Goiânia é uma política de Estado, evidenciada por ruas renomeadas e pela ausência de um memorial físico na cidade onde tudo aconteceu. Enquanto o Governo de Goiás se mobiliza para erguer memoriais a conflitos internacionais, as vítimas do Césio-137 não têm nem uma placa, e projetos locais para honrar as vítimas do Césio-137 seguem barrados. É o caso da proposta de construção de um memorial no âmbito do projeto “Centraliza”, que revitaliza o centro de Goiânia. O plano, que ignorou a região da antiga sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), teve a inclusão da memória das vítimas vetada.
Povo que não tem memória é atropelado pela sua própria história – Aava Santiago, parlamentar
Aava destaca que a recente conquista das vítimas – o reajuste de quase 70% nas pensões vitalícias em abril de 2026 – é indissociável da pressão cultural gerada pela série da Netflix. Antes do destaque global da produção, o cenário era de abandono: em 2023, após oito anos de congelamento, o aumento dessas mesmas pensões havia sido vetado pela gestão estadual, mesmo sob denúncias de falta de medicamentos e dignidade.
GALERIA 1/1
Ainda que o Estado não tenha construído um memorial, a memória de Maria Gabriela permanece viva em cada mulher que lê os sinais da vida e decide, sozinha, que a tragédia não passará dali. Não como vítima, mas feito tecnologia de sobrevivência de um povo cujo Estado falhou em proteger.
Se o acidente soviético de 1986 foi uma explosão que o mundo viu, o desastre que Maria interrompeu em 1987 seria uma “Chernobyl silenciosa”, pulverizada no dinheiro, na água e no solo de uma capital inteira.
GALERIA 1/1
Como na canção de Milton Nascimento, essa Maria possuía a “estranha mania de ter fé na vida”, não uma fé passiva, mas aquela que se traduz em um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta quando o perigo é invisível. Há três anos, Maria Gabriela inspirou criação de lei e hoje virou personagem de destaque na série “Emergência Radioativa”. A personagem Antônia empresta o rosto à angústia e à coragem dessa mulher, deslocando o acidente do campo da estatística técnica para o campo do drama humano e dos efeitos da negligência estatal.
Sucesso global: Emergência Radioativa
Em cinco episódios, “Emergência Radioativa”, série da Netflix lançada no dia 18 de março de 2026, conta a história daquele que é amplamente considerado o maior acidente radiológico com fonte radioativa fora de usina nuclear. A produção, dirigida por Fernando Coimbra e estrelada por Ana Costa (atriz que vive Antônia, personagem inspirada em Maria Gabriela Ferreira), rapidamente alcançou o “Top 5” mundial da plataforma, ocupando o primeiro lugar no ranking entre produções não faladas em inglês.
Assista na Netflix
Saiba mais:
- Filme: CÉSIO 137 – O pesadelo de Goiânia
- Documentário: O brilho da morte: 30 anos do césio 137
- Especial do Metrópoles: Césio-137: os relatos inacreditáveis de quem sobreviveu ao acidente radiológico
- Documentário Césio 137, Um ano depois. Estação Ciência:
Parte 01
Parte 02 - Arquivo Globo News. Crimes no Brasil: A Tragédia do Césio-137
- Reportagem sobre a morte da primeira vítima do acidente radioativo em Goiânia, Maria Gabriela Ferreira. Jornal Nacional, 23/10/1987
- Jornal Nacional – 20 dias após o acidente
- Família luta para que Maria Gabriela seja considerada ‘heroína de Goiânia’



