Entre a sobrecarga, a falta de rede de apoio e a escassez de espaços públicos seguros, mães e cuidadoras periféricas relatam como as telas atravessam o cuidado, a infância e a rotina familiar
Reportagem: Bianca Pedrina
Edição: Amanda Stabile
Fotos: Bruno Amaral
Infografia: Raíssa Ribeiro
Atualizado em 31|03|2026
Todos os dias, Yara da Silva entrega o celular ao filho pequeno. Não como escolha ideal, mas como o que é possível. Na prática, o aparelho garante o tempo necessário para lavar a louça. No cotidiano marcado pelo trabalho que não espera, pela casa que exige fôlego e pela rede de apoio inexistente, a tela surge como a pausa mínima para que o dia siga em frente. “Às vezes, o celular é o tempo de lavar uma louça”.
Moradora do distrito Cidade Ademar, periferia da zona sul da capital paulista, Yara vive o conflito de saber que o dispositivo ajuda, mas também assombra. Mudanças de comportamento, vídeos barrados e tentativas de impor limites fazem parte da rotina. Mesmo assim, na balança entre o que seria o ideal e o que é possível sob exaustão, o cansaço costuma vencer. Como ela mesma resume: “entre a alegria e o desespero”.
A marca do uso surge no corpo dos filhos. Foi o que Márcia Gomes, moradora de Americanópolis, bairro no mesmo distrito, notou quando a filha começou a ter dificuldades severas para dormir. Mesmo deitada no horário de costume, o sono não vinha. “Falei que isso não estava bem”, recorda. A insônia virou o sinal vermelho que forçou a família a cortar drasticamente o tempo de tela. Não foi uma transição simples. O caminho foi pavimentado por resistência, negociações exaustivas e muito cansaço acumulado. Só com a redução sistemática é que o sono voltou ao eixo.
As vivências surgiram na roda de conversa “O Teto e a Tela”, fruto de uma parceria entre o Nós, Mulheres da Periferia e o Observatório das Mulheres Periféricas (OMPerifa), com apoio da Bolsa de Reportagem “Famílias que Conectam”, do edital Puentes. Quinze mulheres, entre mães, avós e cuidadoras de crianças e adolescentes, moradoras de periferias na zona sul de São Paulo e de Diadema, cidade na região metropolitana, conversaram sobre as contradições e táticas para lidar com o digital na família.
A preocupação foi o sentimento unânime. No debate sobre a internet na criação de crianças em desenvolvimento, poucas mulheres associaram o uso imediato a entretenimento ou aprendizado. “Não dá para acompanhar o tempo todo o que eles estão fazendo”, pontuou uma das participantes. Outra completou o nó que aperta todas elas: “Deixar fora disso hoje em dia também não dá, porque tem escola, tem acompanhamento. Mas, se não controlar, se perde”.
O Encontro aconteceu no Instituto Salve Quebrada, no bairro Jardim Itacolomi. Dentre as participantes:
A hipótese principal que deu origem a roda de conversa é a de que a hiperconexão digital nas periferias não acontece apenas por escolha individual, mas sim por estar profundamente relacionada ao cansaço, à sobrecarga das mães e cuidadoras, à ausência de políticas de cuidado e à falta de segurança e espaços públicos acessíveis nos territórios.
“Deixar fora disso hoje em dia também não dá, porque tem escola, tem acompanhamento. Mas, se não controlar, se perde”
Participante da roda de conversa “O Teto e a Tela”
©Bruno Amaral
O que conecta essas trajetórias é a sobrecarga real. Nas periferias, o mundo digital ocupa os vácuos deixados por rotinas de trabalho precário, pelo cuidado que recai quase apenas sobre as mulheres e pela escassez de políticas públicas de apoio, como creches em tempo integral, redes comunitárias de apoio às mães e ausência de educação digital.
Os dados do Mapa da Desigualdade 2025 apontam para um retrato que quem vive nesses territórios conhece na pele. Em conjunto, esses indicadores revelam lugares marcados por desigualdades estruturais que atravessam habitação, mobilidade, educação, cultura, lazer e conectividade.
Em três dos quatro distritos habitados pelas participantes, mais da metade da população se autodeclara preta ou parda (negra), enquanto as mulheres representam a maioria dos habitantes em todos eles, superando 52% da população. Outro elemento comum é a presença significativa de moradias em favelas, que varia entre 14,57% e 20,26%.
A mobilidade urbana limitada também é uma característica compartilhada. Em três dos quatro distritos, o acesso a transporte de massa — como metrô, trem ou monotrilho — é praticamente inexistente, atendendo entre 0% e 0,05% da população. Ao mesmo tempo, a infraestrutura cicloviária é bastante restrita.
No campo da cultura, esporte e lazer, os indicadores revelam um cenário igualmente restritivo. O número de centros culturais e cinemas é inexistente ou próximo de zero em todos os territórios analisados, enquanto os equipamentos públicos de cultura e esporte aparecem em proporções extremamente baixas quando comparados a regiões centrais da cidade.
Essa escassez de infraestrutura cultural e de convivência urbana é acompanhada por limitações na infraestrutura digital. A disponibilidade de antenas de internet móvel varia entre 1,69 e 4,82 antenas por 10 mil habitantes – o que significa que milhares de pessoas dependem de poucas estruturas de conexão, o que pode afetar a qualidade do sinal e a estabilidade da internet móvel.
É nesse cenário de ausência de tempo e de suporte compartilhado que as telas se instalam, expondo limites e gerando novos embates. Esse contexto dá sustentação ao Guia Sobre Usos de Dispositivos Digitais, Crianças, Adolescentes e Telas, lançado em 2025 pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O foco do documento não é o julgamento moral entre “boas” ou “más” mães, mas, sim, o enquadramento do tema como uma questão de direitos e responsabilidades coletivas.
O documento reconhece que a mediação familiar pode ser impraticável em contextos de sobrecarga e ausência de rede de apoio, mas suas recomendações partem de um ideal de rotina distante da vida de muitas mães. Ao propor diálogo constante, supervisão ativa, limites rígidos de tempo, restrição de telas antes do sono e momentos contínuos de “qualidade” em família, o Guia não leva em conta jornadas de trabalho instáveis, o cuidado concentrado quase exclusivamente nas mulheres e a falta de políticas públicas de apoio à primeira infância.
Além disso, a Lei nº 15.100/2025, em vigor desde fevereiro do mesmo ano, proíbe o uso de celulares nas escolas, inclusive nos intervalos. E o chamado ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente para o mundo online, estabelece obrigações inéditas para as plataformas, como verificação de idade, vinculação de contas de adolescentes a responsáveis e ferramentas de supervisão parental.
O receio tem base em números. O relatório Estatísticas TIC sobre uso de tecnologia por crianças de zero a oito anos, publicado em 2025 pelo Cetic.br, revela um avanço contínuo da internet na primeira infância na última década. No intervalo entre 2015 e 2024, o uso entre bebês de menos de dois anos quase quintuplicou. Já entre crianças de 3 a 5 anos, o índice mais que dobrou. A conectividade está chegando cada vez mais cedo.
Os dados ajudam a dar contorno à sensação frequente de que o controle está escapando. O medo não reside apenas nas horas passadas diante do visor, mas no que passa nele sem que o adulto veja. Relatos de vídeos que pareciam educativos, mas escondiam imagens impróprias ou violentas, surgiram com frequência durante a roda de conversa.
“Às vezes, o áudio parece educativo, mas o que está passando na tela é outra coisa”, descreveu uma mãe. A crítica também foi endereçada para as plataformas: “A gente sabe que é nossa responsabilidade, mas as empresas também deveriam ter fiscalização maior”, indicou outra.
“A gente sabe que é nossa responsabilidade, mas as empresas também deveriam ter fiscalização maior”
Participante da roda de conversa “O Teto e a Tela”
Esse cenário se torna ainda mais complexo quando se observa quem, na prática, assume a responsabilidade cotidiana pelo cuidado das crianças e adolescentes. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que as mulheres dedicam, em média, 21 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, quase o dobro do tempo dedicado pelos homens, que realizam cerca de 11 horas semanais dessas atividades.
Ao mesmo tempo, transformações recentes na estrutura familiar brasileira mostram que 49% dos domicílios do país têm mulheres como responsáveis. Entre esses domicílios, 29% são compostos por mães que vivem com filhos e sem cônjuge, o que significa que cerca de três em cada dez lares brasileiros são chefiados por mães solo.
©Bruno Amaral
O desafio da supervisão é agravado pela desigualdade de acesso. Para as famílias das participantes, o celular aparece como o principal dispositivo de acesso à internet, presente em todos os domicílios e concentrando grande parte das atividades digitais. Embora outros aparelhos, como televisores e computadores, também existam, eles não estruturam o uso cotidiano da mesma forma.
Os dados do Cetic.br de 2024 mostram que o uso de computador entre crianças de três a cinco anos foi de 14%, subindo para 34% entre seis e oito anos. Na falta do computador, o uso é do que está à mão, e o celular, por sua natureza, é muito mais difícil de ser monitorado constantemente.
Nas casas das cuidadoras ouvidas pelo projeto, a internet já faz parte do cotidiano de todas as crianças e o acompanhamento desse uso pelos responsáveis ocorre de forma parcial. O uso se concentra principalmente no consumo de vídeos e desenhos, jogos:
Esse formato de consumo rápido acelera o ritmo das crianças. “Ele é da época dos shorts”, diz Yara sobre o caçula, se referindo aos vídeos verticais curtos. “Quer tudo imediato, não tem paciência. Se ficar muito tempo, muda o comportamento”. Essa aceleração foi um eco nas falas das mães, que listaram irritabilidade e impaciência após longos períodos de exposição. “Eles ficam mais imponentes, a entonação da voz muda”, notou uma mulher. Outra descreveu o filho repetindo sons e movimentos vazios, hipnotizado pelo ritmo. “Não agrega nada, mas prende”.
“Ele é da época dos shorts. Quer tudo imediato, não tem paciência.”
Participante da roda de conversa “O Teto e a Tela”
É neste exato ponto que o Guia da Secom 2025 se conecta com a realidade dessas mulheres. O estudo alerta que especialistas e formuladores de políticas já apontam para atrasos no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado quando o digital é usado de forma inadequada ou intensa. O debate sobre saúde mental e física não é, portanto, um exagero isolado, mas um alerta urgente sobre o impacto dos estímulos.
Muitas vezes, o impacto atravessa a atenção e atinge o sono. Para além do caso de Márcia, outras narrativas mostraram a dificuldade das crianças em “desligar”. “Deita, mas não dorme”, explicou uma mãe. Embora o Cetic.br não mensure o tempo exato de uso, as histórias deixam claro que a questão central não é apenas o relógio, mas sob quais condições e com quais alternativas a criança está sendo exposta ao digital.
Apesar dos medos, durante a roda de conversa, ninguém defendeu banir as telas totalmente. A unanimidade foi em torno do uso positivo quando há mediação. Mães contaram que usam vídeos para explicar por que o céu é azul ou para instigar a curiosidade dos filhos. “Tem coisa boa, sim. O problema é o excesso e estar sozinha para dar conta”, resumiu uma participante.
“Tem coisa boa, sim. O problema é o excesso e estar sozinha para dar conta”
Participante da roda de conversa “O Teto e a Tela”
A solidão, aliás, foi um tema central. Falar sobre essas dificuldades ainda é um tabu, visto como uma exposição de vulnerabilidade. “A primeira coisa que a gente fala é ‘eu estou cansada’. Não dá tempo de falar do comportamento do filho”, desabafou uma das mulheres. Para muitas, a roda de conversa do ‘O Teto e a Tela’ foi um respiro inédito na rede de apoio.
Até quem cuida há mais tempo sente o peso. A avó Viviane Aparecida da Silva, moradora do Jabaquara, na zona sul, relata que usa o celular com o neto para conseguir dar conta das tarefas domésticas e cuidar do bebê mais novo. “No meu tempo não tinha tecnologia. Estou aprendendo agora”, disse, admitindo o medo da agressividade da criança diante do “não”.
A comparação social também pesa. Mães relataram o medo de que os filhos fiquem isolados ou sofram bullying por não acompanharem as mesmas plataformas dos colegas. Por outro lado, houve quem expressasse orgulho ao ver os filhos brincando de bolinha de gude, mantendo uma infância longe dos algoritmos. “A gente fica achando que está atrasando, mas não está”, pondera uma delas.
©Bruno Amaral
No fim, o que resta são as contradições. Para as mulheres da periferia, não há escolha confortável. Quando questionadas sobre o real motivo para liberar a tela, o cansaço costuma ser a resposta definitiva. “Antes de pensar se meu filho vai conhecer tecnologia, quero dormir quinze minutos”, conclui Yara.
Essas constatações não ficaram só na roda de conversa. Elas deram origem à pesquisa “O Teto e a Tela: conversas sobre cuidado, tecnologia e famílias periféricas”, construída a partir da escuta de mães e cuidadoras e dedicada a aprofundar os impactos da tecnologia nas rotinas de cuidado e nas dinâmicas familiares. Acesse aqui.
Ao final da roda de conversa, o encontro seguiu para um momento de pausa e criação coletiva: a oficina de escrita criativa. Depois de tantas falas, escutas e trocas, a proposta era abrir também um espaço para que as participantes pudessem se expressar de outras formas.
Inspirada nas escritas de si e nas escrevivências de Carolina Maria de Jesus – escritora negra, catadora de papel e moradora da favela do Canindé, em São Paulo –, a atividade convidou as participantes a transformar sentimentos, memórias e sonhos em palavras. As produções dessa oficina deram origem à zine “Quando não há espetáculo, sonhamos”.
Apesar da conversa ter sido sobre criação dos filhos e o impacto da tecnologia, neste momento, elas colocaram no papel outras emoções, desejos e mensagens essenciais que as guiam diariamente.