Foto representando as mulheres indígenas brasileiras mostra mulher indígena em close, olhando diretamente para a câmera, com pinturas tradicionais pretas no rosto — linhas geométricas nas bochechas e um desenho central na testa.

Entre desigualdades e resistências: o retrato das mulheres indígenas no Brasil

Mais da metade da população indígena no país, elas enfrentam maior exposição à violência, morrem mais cedo e têm menos acesso a trabalho e educação

Por Amanda Stabile

16|04|2026

Alterado em 19|04|2026

O Brasil tem 1.693.535 pessoas indígenas, segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — o retrato mais recente e abrangente desses povos. São presenças espalhadas por todo o território: nas 573 Terras Indígenas oficialmente delimitadas, mas também para além delas, em cidades, periferias e áreas não demarcadas. Mais de 6 mil agrupamentos indígenas revelam que esse mapa é múltiplo, diverso e em constante movimento.

É nesse território amplo e marcado por disputas que vivem as mulheres indígenas. Elas são cerca de 860 mil, pouco mais da metade da população indígena no país. Em sua maioria, são jovens e estão concentradas na região Norte, onde também se encontra a maior parte dos povos indígenas no Brasil.

Saúde

Mulheres indígenas morrem mais cedo: a idade mediana de morte é de 31 anos, enquanto entre mulheres brancas chega a 39 anos, de acordo com estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado na revista científica The Lancet. O dado não se refere à expectativa de vida, mas à distribuição das mortes entre mulheres em idade reprodutiva, e está relacionado a fatores como violência, desigualdades sociais e acesso limitado a serviços de saúde.

As mortes também ocorrem com mais frequência fora dos hospitais. Segundo o estudo, 58% dos óbitos de mulheres indígenas ocorrem em unidades de saúde, enquanto entre mulheres brancas esse número chega a 77,4%. Ao mesmo tempo, as mortes em casa são 24,9% entre indígenas, quase o dobro do registrado entre mulheres brancas. Esse padrão indica dificuldades no acesso a serviços de saúde.

Já um levantamento realizado pela organização Think Eva, com base em dados de saúde pública, aponta que as taxas de mortalidade entre a população indígena podem ser até quatro vezes maiores que a média nacional, a depender da região e das condições de acesso a serviços de saúde.

Violência

A violência é outro eixo central dessa desigualdade. Dados sistematizados pela Gênero e Número, com base no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), indicam que os registros de violência contra mulheres indígenas cresceram 258% entre 2014 e 2023, acima da média nacional. Nos casos de violência sexual, o aumento chega a 297%. A maior parte das vítimas são meninas: 79% têm menos de 18 anos, e cerca de metade tem menos de 14 anos.

Mercado de trabalho

No mercado de trabalho, os dados também revelam barreiras persistentes. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, a taxa de desemprego entre mulheres indígenas é de 12,5%, superior à média brasileira, que gira entre 7% e 9%.Além disso, apenas 46,3% estão inseridas no mercado de trabalho, proporção menor que a de outros grupos.

Educação

Elas também têm baixa presença no ensino superior. Dados do Censo da Educação Superior, do Inep, analisados pela Gênero e Número, indicam que pessoas indígenas representavam cerca de 0,5% dos estudantes universitários em 2018, último ano disponível da análise. Embora as mulheres tenham passado a ser maioria entre os ingressantes indígenas, elas seguem sendo uma parcela muito pequena no conjunto total de estudantes.

As desigualdades educacionais e territoriais também impactam essas trajetórias. Entre pessoas indígenas com 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo é de 15%, mais que o dobro da média nacional, que é de 7%, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE. Apesar da queda em relação a 2010, quando era de 23,4%, o indicador segue revelando desigualdades persistentes no acesso à educação.

Foto home do site: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil