Em entrevista, Marcela Bonfim apresenta livro sobre Amazônia Negra

A obra "Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível" reúne reflexões da fotógrafa sobre a presença negra em território amazônico

Por Beatriz de Oliveira

30|04|2026

Alterado em 08|05|2026

Desde 2010, quando se mudou para Porto Velho (RO), a fotógrafa paulista Marcela Bonfim tem se dedicado a registrar a presença negra em território amazônico. Agora, suas reflexões em torno dessas imagens estão disponíveis também pela escrita, através do livro “Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível”, publicado pela editora Igrá Kniga.

Em seu livro de estreia, Marcela descreve suas considerações em torno das potencialidades de uma Amazônia Negra. “O livro nasce de pequenas incursões, em que a cabeça, antes repleta de estigmas, dá lugar aos movimentos de uma Amazônia Negra pulsante e cheia de nuances que se aproximam das minhas. Nasce também de um despertar para uma economia visual, em que o meu corpo e a minha mente são os pilares da casa que preciso reorganizar constantemente — dentro de um sistema que se alimenta da vantagem sobre a cor dessa casa”, escreve na apresentação da obra.

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Menino na água, em São Miguel do Vale do Guapore 2016. Crédito: Marcela Bonfim

Madeira de Dentro. Crédito: Marcela Bonfim

A publicação conta ainda com fotos da autora ao longo de sua trajetória registrando comunidades negras na região, as quais fazem parte do projeto “(Re) conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta”, uma plataforma que envolve produção fotográfica, musical e audiovisual.

O Nós, mulheres da periferia conversou com Marcela acerca de seu novo lançamento. Ela discorreu sobre o que motivou a escrita da obra, que chega como um gesto de memória e de posicionamento, num exercício de “pensar por imagens”. Confira!

Nós: Marcela Bonfim, como fotógrafa você tem se dedicado a registrar a Amazônia Negra. O que te motivou a pontuar suas reflexões também pela escrita?

Marcela Bonfim: A fotografia sempre foi o meu primeiro território de escuta. É através dela que eu encontro, reconheço e construo relações com os corpos e os territórios da Amazônia Negra. Mas, ao longo do percurso, compreendi que a imagem, por si só, não dá conta de tudo — existem camadas que não se revelam apenas no visível.

A escrita surge como uma continuidade desse gesto. Ela me permite nomear silêncios, tensionar ausências e aprofundar aquilo que a imagem sugere, mas não explica. É também um espaço de elaboração — política, histórica e afetiva.

Escrever, nesse sentido, não é complementar à fotografia, mas uma outra forma de existir dentro da mesma investigação: a de afirmar que há uma Amazônia Negra que foi sistematicamente invisibilizada, mas que permanece viva, produzindo sentido e memória.

Nós: Como a escrita sobre a Amazônia Negra te atravessou antes da publicação do livro?

Marcela Bonfim: A escrita me atravessou antes mesmo de se constituir como livro. Ela nasce como urgência — uma necessidade de organizar o que eu via, ouvia e sentia nos encontros com os territórios e com as pessoas.

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Quilombo de Vila Bela, 2015. Crédito: Marcela Bonfim

Pimenteiras, Divino Procópio, RO. Crédito: Marcela Bonfim

Durante muito tempo, ela existiu de forma fragmentada: em anotações, reflexões soltas, registros sensíveis que surgiam após cada experiência vivida. Era uma escrita íntima, mas também profundamente política, porque lidava com o incômodo do apagamento e com a tentativa de compreender essas ausências.

Com o tempo, fui percebendo que esses fragmentos formavam uma narrativa maior — uma espécie de cartografia da Amazônia Negra a partir de dentro. O livro surge, então, como a organização dessa travessia, e não como um ponto de partida.

Nós: O que o leitor encontrará ao acessar o livro “Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível”?

Marcela Bonfim: O leitor encontrará uma outra forma de enxergar o corpo negro e a sua história. O livro propõe uma reescrita a partir da visualidade, destrinchando aspectos e camadas das imagens que, muitas vezes, permanecem invisíveis no olhar apressado.

A partir desse processo, emerge um corpo negro mais potente — não limitado pelas narrativas de ausência, mas afirmado em sua densidade, presença e força histórica. É nesse sentido que trabalho a ideia de uma economia visual, onde cada imagem carrega múltiplos sentidos e reorganiza a forma como vemos e compreendemos esses corpos.

Ao mesmo tempo, o livro provoca um movimento reflexivo. Ao reconhecer as amarras históricas, sociais e estruturais que atravessam a experiência negra, também se evidencia a força com que esses sujeitos chegaram até aqui — muitas vezes sustentados por si mesmos, em confronto direto com estruturas de apagamento.

Esse processo se articula com o que chamo de letramento visual: a possibilidade de ler criticamente as imagens e compreender como elas constroem narrativas sobre a história e sobre os sujeitos.

Nesse sentido, o livro é também um gesto político — um movimento de reposicionamento e de reparação, que convida o leitor a repensar a história a partir do campo da visualidade.

Nós: O livro conta com fotos do projeto “(Re) conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta”. Conta sobre o que se trata essa iniciativa?

Marcela Bonfim: O projeto “(Re) conhecendo a Amazônia Negra” nasce como um gesto de reconexão e reposicionamento do olhar. Ele propõe evidenciar a presença negra na Amazônia a partir dos próprios territórios, saberes e modos de vida dessas populações.

A iniciativa percorre comunidades, práticas culturais e histórias que revelam como a negritude está profundamente enraizada na formação da Amazônia — não como elemento periférico, mas como parte estruturante de sua existência.

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Corpo em transe, São Luis do Maranhão, 2016. Crédito: Marcela Bonfim

O “(Re)” carrega um sentido fundamental: não se trata de descobrir algo novo, mas de reconhecer aquilo que sempre esteve presente e foi historicamente invisibilizado. É um convite a rever narrativas, deslocar percepções e reconstruir formas de ver.

Nós: Quer adicionar mais algum comentário?

Marcela Bonfim: Este livro é, antes de tudo, um gesto de memória e de posicionamento. Ele nasce do compromisso de tensionar narrativas históricas e de afirmar a Amazônia Negra como parte fundamental da construção social, cultural e política do Brasil. Mais do que revisitar o passado, ele fala de permanência, de presença e de futuro.

Existe uma urgência em recontar essas histórias — não mais a partir da ausência, mas daquilo que resiste, permanece e se reinventa.

Se o livro provoca algum deslocamento no olhar, se ele abre fissuras nas formas cristalizadas de ver a Amazônia, então ele já cumpre parte do seu papel: o de contribuir para um processo mais amplo de reconhecimento, pertencimento e reparação.