Foto mostra mulher olhando para cartaz com fotos de crianças desaparecidas

De Bacabal a Belford Roxo: por que o Estado demora a encontrar crianças negras?

Casos no Maranhão e no Rio de Janeiro expõem desigualdades na atuação do Estado diante de desaparecimentos infantis

Por Amanda Stabile

04|02|2026

Alterado em 04|02|2026

No território quilombola São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA), a tarde de 4 de janeiro começou como tantas outras: crianças correndo para a mata, a brincadeira abrindo caminho entre árvores conhecidas. Ágatha Isabelly, de seis anos, Allan Michael, de quatro, e o primo Anderson Kauã, de oito, desapareceram nesse intervalo entre o brincar e o voltar para casa.

©Redes sociais de familiares

Mais de 500 pessoas participaram das buscas, percorrendo trilhas, margens do rio e áreas de mata. Três dias depois, Anderson foi encontrado com vida por trabalhadores que passavam pelo local em uma carroça. Após ser localizado, o menino indicou caminhos percorridos e uma cabana caída às margens do Rio Mearim. As buscas continuaram com apoio de equipes especializadas, uso de sonar no rio e análise de possíveis pistas, sem que até o momento houvesse a localização das duas crianças.

Um problema estrutural, não um caso isolado

O caso escancara um padrão mais amplo. No Brasil, 57 crianças e adolescentes desaparecem por dia, segundo o Relatório Estatístico Anual de Crianças Desaparecidas e Localizadas, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (ano-base 2022, publicado em 2024). Em 2022, foram 2.169 crianças de 0 a 12 anos; em 2024, o número chegou a cerca de 20 mil casos envolvendo crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.

Do ponto de vista do gênero, os dados nacionais mostram que, na infância (0 a 12 anos), os desaparecimentos atingem mais meninos, que representam 54,5% dos registros. Ainda assim, em nove estados brasileiros há mais registros de desaparecimento de meninas nessa faixa etária, o que indica variações territoriais importantes e reforça a necessidade de análises locais mais detalhadas.

O recorte racial evidencia uma das principais fragilidades do sistema de registros. Em 38,5% dos casos de crianças desaparecidas, não há qualquer informação sobre raça ou cor, o que limita a compreensão sobre quem são as crianças mais afetadas. Entre os registros que informam esse dado, crianças pardas concentram o maior número de desaparecimentos no país (29,1%), seguidas pelas brancas (25%).

Crianças pretas aparecem em menor proporção nos números absolutos, mas com percentuais mais elevados em alguns estados, como Piauí e Rio de Janeiro. O próprio relatório destaca que a ausência ou a baixa qualidade dessas informações compromete análises mais precisas sobre desigualdades raciais nos desaparecimentos infantis.

As desigualdades também se expressam no território. Sudeste e Sul concentram a maior parte dos registros de desaparecimento de crianças, mas é no Norte que se observa o quadro mais crítico quando se analisa a resolução dos casos. A região reúne apenas 4,6% das crianças localizadas no país, apesar de registrar desaparecimentos em todos os seus estados.

O relatório aponta limitações estruturais na coleta de dados e na atuação das autoridades locais, o que ajuda a explicar por que, em estados do Norte e do Nordeste, o desaparecimento tende a se prolongar no tempo. Em Bacabal, como em tantos outros lugares, a estatística se traduz em espera prolongada, com investigações que se estendem no tempo e uma rotina comunitária profundamente afetada pela ausência de respostas.

Quando os desaparecimentos viram violência continuada

Estudos sobre desaparecimento no Brasil mostram que esse vazio não é acidental. A ausência de respostas, a demora nas investigações e a precariedade das buscas atingem de forma desigual determinados corpos e territórios. O artigo “Quando a morte socorre a vida – Racismo e desaparecimento forçado de pessoas”, publicado nos Cadernos da Defensoria Pública de São Paulo (2021), aponta que o desaparecimento também pode operar como uma forma de violência continuada: não apenas pelo sumiço em si, mas pela maneira como o Estado reage — ou deixa de reagir.

O texto destaca que esse padrão incide de forma mais intensa sobre populações negras, pobres e periféricas, revelando o papel do racismo estrutural na gestão dos desaparecimentos. Corpos racializados tendem a receber menos atenção, menos recursos e menos prioridade, o que faz com que o desaparecimento deixe de ser tratado como uma exceção grave e passe a ser naturalizado como parte da ordem social.

Outro ponto central é o impacto dessa dinâmica sobre os familiares, reconhecidos no artigo como vítimas diretas do desaparecimento. A ausência de informações, de acesso à verdade e de responsabilização do Estado impede o luto, prolonga o sofrimento e fragiliza os direitos dessas famílias, que permanecem à espera de respostas que muitas vezes nunca chegam.

O peso da busca também tem gênero. Pesquisas mostram que são, majoritariamente, as mulheres — sobretudo mães — que assumem a linha de frente da busca. O artigo “‘Naquela época não se ouvia falar de desaparecido’: família e maternidade na militância do desaparecimento de pessoas no Brasil” (2019), publicado na revista Mana, descreve como essa mobilização se constrói a partir da figura materna: mães que deixam o trabalho, reorganizam a rotina doméstica e transformam o cuidado em ação política, ocupando delegacias, praças e a imprensa para cobrar respostas.

Na prática, a busca se converte em trabalho — e recai quase sempre sobre elas. São mães que passam o dia entre delegacias, hospitais e institutos médicos-legais, refazendo boletins de ocorrência, imprimindo cartazes, seguindo pistas, falando com repórteres e organizando protestos.

Muitas faltam ao emprego, perdem renda ou precisam reestruturar toda a rotina da casa para continuar procurando. Em vez de receber respostas do poder público, assumem tarefas que caberiam ao Estado. Como observa o autor, a maternidade se torna a principal forma de legitimar essa luta, mas também concentra a sobrecarga da espera e da insistência.

Mães de Acari: o luto que virou luta

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© Alaor Filho/ Exposição Mães de Acari 30 anos

© Carlos Cruz Nobre/Exposição Mães de Acari 30 anos

© Fábio Araújo

© Fábio Araújo

Esse cenário ajuda a entender por que a ausência de respostas se repete ao longo do tempo. No início dos anos 1990, no Rio de Janeiro, o desaparecimento de 11 jovens negros da Favela de Acari – sete com menos de 18 anos de idade – deu origem ao movimento conhecido como Mães de Acari, formado por mulheres que passaram a exigir respostas após seus filhos serem sequestrados em uma ação atribuída a policiais.

Sem investigações efetivas, sem corpos e sem responsabilização, essas mães transformaram a busca pelos filhos em luta pública, ocupando delegacias, tribunais, ruas e espaços políticos em nome da verdade e da memória. No artigo “Mães de Acari: o luto partido pela luta” (2019), a pesquisadora Malu Stanchi mostra que a violência não termina no momento do desaparecimento. Ela se prolonga no tempo, sustentada pela omissão do Estado, pela lentidão das investigações e pelo encerramento de inquéritos sem respostas.

Segundo o estudo, quando as vítimas são negras e periféricas, o desaparecimento tende a ser tratado como um caso difícil ou insolúvel, o que naturaliza a falta de desfecho e transfere para as famílias a responsabilidade de buscar, insistir e lembrar. Nesse contexto, o luto não encontra encerramento e passa a ser vivido como luta permanente.

Os desaparecimentos de quais crianças importam?

Essa lógica também aparece na forma como o desaparecimento e a morte de crianças negras são tratados no espaço público e na mídia. No artigo “Necroinfância: o dispositivo de racialidade e a cobertura dos casos ‘Meninos de Belford Roxo’ e ‘Henry Borel’” (2024), a pesquisadora Pâmela Guimarães Silva analisa dois episódios ocorridos no Rio de Janeiro que receberam tratamentos profundamente diferentes por parte do Estado e da mídia.

©Arquivo pessoal de familiares

O caso que ficou conhecido como Meninos de Belford Roxo teve início em dezembro de 2020, quando três crianças negras, pobres e residentes de áreas periféricas — Fernando Henrique, de 11 anos, Alexandre da Silva, de 10, e Lucas Matheus, de oito — desapareceram após sair para brincar em um campo de futebol na Baixada Fluminense.

As famílias procuraram a polícia no mesmo dia, mas enfrentaram demora no registro do desaparecimento e lentidão nas investigações. A força-tarefa policial só foi criada meses depois, e o caso recebeu pouca atenção da grande mídia. Até hoje, o desaparecimento dos meninos segue marcado por falhas investigativas e ausência de respostas claras.

Já o caso Henry Borel ocorreu em março de 2021 e envolveu a morte de um menino branco, de quatro anos, morador da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Henry morreu após sucessivos episódios de violência dentro de casa. Diferentemente do caso de Belford Roxo, a investigação foi rápida, mobilizou diferentes órgãos da segurança pública e recebeu ampla cobertura jornalística, com reportagens longas, reconstituições detalhadas e uso intensivo de tecnologia pericial. O caso ganhou comoção nacional e permaneceu por meses no centro do noticiário.

Ao comparar os dois episódios, o estudo evidencia que casos envolvendo crianças negras e periféricas são rapidamente silenciados, enquanto a violência contra crianças brancas mobiliza atenção pública, recursos institucionais e comoção midiática. Essa desigualdade, como argumenta a autora, não é acidental, mas expressão do dispositivo de racialidade que hierarquiza quais infâncias merecem proteção e quais são tratadas como descartáveis.

A isso, o artigo dá o nome de necroinfância: uma política de morte que também atinge crianças negras, seja pela violência direta, seja pelo abandono, pelo desaparecimento e pelo esquecimento institucional.

O que fazer quando alguém desaparece?

Se alguém próximo desaparecer, não é preciso esperar 24 horas. O primeiro passo é registrar imediatamente um boletim de ocorrência, online ou em qualquer delegacia. Leve o máximo de informações possíveis: características físicas, roupas usadas pela última vez, local onde a pessoa foi vista, hábitos, condições de saúde e dados de contato.

Após o registro, a Polícia Civil deve instaurar a investigação, e os dados da pessoa desaparecida passam a integrar o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. Também é recomendável ligar para o 190, procurar hospitais, prontos-socorros e o Instituto Médico Legal (IML). Saiba mais aqui.