Autismo em mulheres: o diagnóstico que quase não chega
A mulher diagnosticada que nunca ouviu “você não parece autista” que atire a primeira pedra
11|02|2026
- Alterado em 11|02|2026
Por Jo Melo
Eu fui diagnosticada autista quando adulta e não preciso adiantar que foi difícil. Assim como acontece com muitas mulheres, o diagnóstico demorou não porque os sinais não existiam, mas porque ninguém estava procurando com o cuidado e as técnicas necessários.
Durante muito tempo, o autismo foi associado a uma imagem específica: crianças com movimentos repetitivos visíveis e dificuldade extrema de comunicação. Essa imagem se transformou em filtro clínico e social. Quem não se encaixa nele passa despercebido.
Não porque não esteja no espectro, mas porque aprendeu desde cedo a observar antes de agir, a regular a voz, a controlar gestos, a copiar comportamentos e a se adaptar a um mundo que exige isso das mulheres desde a infância.
Quando essas mulheres chegam à vida adulta, o que se vê não é o estereótipo do autismo. O que aparece é cansaço, ansiedade, depressão, crises que ninguém entende, sensação constante de inadequação e uma série de diagnósticos que não explicam o que realmente está acontecendo.
O problema não está na ausência de sinais, mas na forma como fomos ensinadas a nos comportar e a observar.
Meninas aprendem desde cedo a conter gestos, vigiar o corpo, controlar a voz e agradar. “Fecha as pernas”, “não grita”, “isso não é coisa de menina”, “aja como uma mocinha”. Esse processo atinge todas as mulheres, sejam neurodivergentes ou não.
No caso das mulheres autistas, isso se transforma em um esforço permanente de mascaramento, uma adaptação contínua que cobra um preço alto na saúde mental e que dificulta o reconhecimento do espectro na vida adulta.
Os próprios critérios diagnósticos ajudam a explicar esse cenário. Grande parte dos estudos científicos, avaliações e descrições clínicas do autismo foi construída a partir de perfis masculinos. Como consequência, mulheres costumam ser subdiagnosticadas com transtorno de personalidade borderline, transtorno bipolar, ansiedade ou depressão antes que a hipótese do espectro seja considerada.
A subnotificação
Segundo dados do IBGE, 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de autismo, o que representa cerca de 1,2% da população. De acordo com o estudo, “a prevalência foi maior entre os homens (1,5%) do que entre as mulheres (0,9%), o que corresponde a 1,4 milhão de homens e 1 milhão de mulheres”. Esses números sugerem um subdiagnóstico feminino que precisa ser considerado no debate sobre reconhecimento e acesso ao suporte clínico.
Segundo o estudo de Hofvander e colaboradores, pessoas autistas apresentam risco significativamente maior de sofrimento emocional e com maior risco de suicídio, representando entre 7,3 e 15% desse grupo, mesmo sendo cerca de 1% da população geral.
Quando se observa a realidade brasileira a partir de gênero, raça e classe, o cenário se agrava. O autismo é ainda mais difícil de ser identificado em mulheres negras e periféricas, tanto por barreiras de acesso a serviços especializados quanto por limitações históricas nos próprios critérios diagnósticos.
Mesmo sendo difícil identificar o espectro na vida adulta, homens ainda têm mais propensão ao diagnóstico do que mulheres. Isso revela que a dificuldade não está apenas na complexidade do transtorno, mas na forma como ele foi historicamente compreendido.
A visibilidade sobre o tema começou a ganhar força a partir de 2016, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) lançou uma campanha sobre autismo em mulheres. Referências na mídia e na cultura popular também contribuíram para que muitas se reconhecessem, como a cantora Susan Boyle e figuras públicas como a ativista Greta Thunberg. A partir dessa exposição, aumentou a procura por avaliação e diagnóstico entre mulheres adultas.
Por não ser amplamente reconhecido em adultos e por persistirem estereótipos sobre o que é ser autista, muitas mulheres têm seu diagnóstico questionado em ambientes familiares, profissionais e sociais. Para serem aceitas, continuam escondendo dificuldades e desempenhando papéis que geram exaustão constante.
Machismo presente nos diagnósticos
Não se trata de querer um diagnóstico diferente, mas de reconhecer que os parâmetros usados para identificar o espectro foram pensados a partir de experiências masculinas. Estamos falando da qualidade de vida de mulheres que, muitas vezes, só chegam ao diagnóstico aos cinquenta anos, depois de uma vida inteira acreditando que eram o problema, passando por abusos, relacionamentos violentos e sofrimentos que poderiam ter sido evitados.
O diagnóstico não é troféu. É ferramenta de autoconhecimento, de cuidado, de perdão consigo mesma e de compreensão sobre a própria história em um mundo que sempre tratou essas mulheres como estranhas demais para serem entendidas e normais demais para serem investigadas.
Por isso, a pergunta não é: “Por que você não parece autista?” Talvez a pergunta correta seja: “Por que ainda insistem em acreditar que o autismo tem uma única aparência?”
Jo Melo É mãe, editora e fundadora do Instituto Mães que Escrevem. Foi diagnosticada com autismo e TDAH na idade adulta. Escreveu e publicou os livros Os Cinco Sentidos e Hipérboles, é organizadora da coletânea Escrevivências Maternas e participa de diversas antologias. @jomelo.escritora
Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.
Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.
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