Fome, substantivo feminino: estudo mostra por que mulheres negras são as mais atingidas pela insegurança alimentar
A economista Clara Saliba analisou a insegurança alimentar a partir de desigualdades de gênero e raça, usando a lente da economia feminista
Por Beatriz de Oliveira
12|03|2026
Alterado em 12|03|2026
O patriarcado e o racismo influenciam diretamente no acesso à alimentação adequada, e isso ajuda a explicar por que lares chefiados por mulheres negras são os que mais sofrem com a insegurança alimentar. É nesse entendimento que está baseada a dissertação de mestrado da economista Clara Mendonça Saliba. “Estudar a fome é estudar a desigualdade no sistema capitalista em sua expressão mais extrema e mais simbólica”, pontua.
No estudo “Fome, substantivo feminino: considerações sobre a insegurança alimentar em domicílios brasileiros chefiados por mulheres”, a pesquisadora analisou os microdados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018) e concluiu que 50,5% dos domicílios chefiados por mulheres negras viviam em algum grau de insegurança alimentar, em comparação com 36,7% da média nacional.
A insegurança alimentar é caracterizada pela falta de acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente para uma vida saudável. É classificada em três categorias: leve, quando existe incerteza sobre a capacidade para conseguir alimentos; moderada, quando a qualidade, a variedade e a quantidade ingerida se reduzem de forma drástica ou quando determinadas refeições não são realizadas; e grave (fome), quando não são consumidos alimentos durante um dia inteiro ou mais.
Além disso, notou-se que os domicílios chefiados por homens brancos apresentam 43% menos chances de estar em situação de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave), quando comparados aos domicílios chefiados por mulheres negras.
Com uma perspectiva interseccional, tendo em vista raça e gênero, o estudo foi baseado na economia feminista, que parte do pressuposto de que “nas relações de cuidado existe também um trabalho, que é social e historicamente relegado às mulheres e não remunerado, não reconhecido e não valorizado; isso gera uma série de outras desigualdades de raça e de classe que vão se refletir no mercado de trabalho e na vida política”.
Entre as conclusões da pesquisa, está também a necessidade de que a fome seja medida em nível individual, e não domiciliar. Atualmente, a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) é pensada na ótica do domicílio e não capta as desigualdades dentro da família.
Clara explica que dentro de uma mesma família podem existir diferenças de acesso à alimentação. “É muito corriqueiro a gente escutar a ideia de que se prioriza a alimentação do homem na família. Então, o pai de família sempre é aquele que vai comer primeiro, sempre a pessoa que vai ter acesso a maiores quantidades de comida. Isso significa que mulheres e meninas em um domicílio com essa lógica, podem passar por uma insegurança alimentar maior do que os homens”, diz.
Clara Saliba é pesquisadora e economista
©arquivo pessoal
Políticas de combate à fome devem considerar desigualdades de gênero e raça
De modo inédito em um estudo de economia, Clara calculou o impacto do incremento de renda nas famílias em relação à segurança alimentar. Observou-se que, para um homem branco chefe de família, um aumento na renda tem efeito positivo na segurança alimentar 12% maior do que em famílias chefiadas por mulheres negras. Ou seja, devido às desigualdades de gênero e raça, as mulheres enfrentam barreiras para converter aumento de renda em maior acesso de alimentos.
Diante disso, a pesquisadora sugere que políticas de combate à fome não devem se concentrar apenas na transferência de renda, mas considerar também quem exerce o trabalho de preparo dos alimentos e quem sofre mais privações alimentares.
Ela destaca que as políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) são fundamentais para o combate à fome. No entanto, desigualdades de raça, de classe e de gênero fazem com que essas medidas não sejam suficientes.
“A renda tem pesos diferentes para famílias diferentes. A existência de rede de apoio, a possibilidade de morar em um lugar mais próximo de feiras e de mercados, a disponibilidade de tempo para cozinhar alimentos in natura são fatores que influenciam na condição alimentar das pessoas para além do simples fato de elas terem dinheiro ou não para se alimentar”, diz.
E resume: “pensar num combate à insegurança alimentar que seja eficiente também precisa passar pelo combate à desigualdade de gênero e de raça”.
Pensar num combate à insegurança alimentar que seja eficiente também precisa passar pelo combate à desigualdade de gênero e de raça
Clara Salina
Mulheres negras, mães solo e baixa renda: as mais propensas à insegurança alimentar
A pesquisa “Fome, substantivo feminino” indica características sociodemográficas com maior propensão à insegurança alimentar. Entre elas, estão: domicílios chefiados por mulheres negras, nas regiões Norte e Nordeste, com baixa renda domiciliar per capita, em que há crianças, especialmente menores de 5 anos.
Mostrou-se ainda que as famílias lideradas por mulheres negras estão mais frequentemente associadas aos fatores de risco para a insegurança alimentar, como a maternidade solo, a baixa renda domiciliar per capita e menos anos de estudo.
“Quando aliamos a maternidade solo com questões de raça, de classe e regionais, vemos que mulheres, por desigualdades estruturais, não têm no Estado e na sociedade o amparo para lidar com essa criança”, diz.
E acrescenta: “então, muitas vezes acabam tendo que abrir mão, por exemplo, do trabalho remunerado no regime da CLT e vão fazer outros tipos de trabalho que são mais flexíveis, vão procurar bicos que permitam a elas conciliar melhor a sua rotina com o tempo que elas precisam dedicar ao cuidado dessa criança”.
Clara avaliou também o impacto dos anos de estudo: em domicílios com a mesma renda, em que o chefe de família tem maior escolaridade tendem a ter maior acesso à alimentação adequada. Notou-se que um ano adicional de estudos da pessoa de referência reduz em 5% a chance de um estado pior de segurança alimentar no domicílio.
“Uma pessoa em situação de insegurança alimentar que não é alfabetizada vai ter mais dificuldade de encontrar oportunidades de sanar esse problema, porque é muito mais difícil para ela acessar o espaço social como um todo, seja indo num CRAS, num posto de saúde, ou conseguindo ler e receber informações sobre mutirões de doação e cozinhas solidárias”, exemplifica.
Já em relação às desigualdades territoriais, notou-se que as regiões Norte e Nordeste são as que apresentam maiores chances de insegurança alimentar. Já as regiões Sul e Sudeste detêm os menores índices.
Há ainda considerações importantes sobre áreas rurais e urbanas: domicílios rurais com o mesmo nível de renda de domicílios urbanos tendem a ter maior acesso à alimentação adequada, devido à possibilidade de plantação para autoconsumo, por exemplo. Mas, ao olhar para os dados gerais, existem mais domicílios rurais em insegurança alimentar do que domicílios urbanos.
A economista destaca que essas desigualdades regionais não dizem respeito à capacidade das famílias de conseguir sustento para uma alimentação adequada, mas sim com condições históricas e sociais de desenvolvimento desses territórios. “Para mim, não é estranho que a região Sul tenha maior segurança alimentar, sendo que é a região com os maiores índices de agricultura familiar e, historicamente, a região que já esteve mais próxima de uma reforma agrária”.
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