mulher com cabelo rosa

Entre o quilombo e o palco: a música de Ana Cacimba nasce da ancestralidade

Mãe atípica, artista periférica e única luthier mulher de asalato no Brasil, Ana carrega vozes ancestrais em sua obra

Por Amanda Stabile

06|03|2026

Alterado em 06|03|2026

Ana Cacimba é uma artista que carrega em sua trajetória a força da ancestralidade e da espiritualidade. Mãe atípica, artista independente periférica e aprendiz de benzedeira, ela constrói sua obra a partir das memórias e práticas de sua família quilombola.

Nascida em Diadema, no ABC paulista, Ana cresceu entre dois mundos: a periferia urbana e o quilombo rural de Berilo, no Vale do Jequitinhonha (MG). A família migrou para São Paulo em busca de trabalho: os homens nas indústrias, as mulheres em casas de família. Mas os vínculos com o quilombo nunca se romperam.

“Eu fui criada entre a cidade grande e o quilombo. Aqui tinha todas as dificuldades da quebrada e lá tinha outras: fugir de escorpião, alimentar os porquinhos, ouvir histórias”.

Uma dessas histórias é central na sua trajetória: a da avó, conhecida como “vozinha Ana”, que foi lavadeira, parteira e benzedeira da comunidade. Entre as muitas tarefas que exercia no quilombo, era também guardiã dos cantos entoados pelas lavadeiras para aliviar o peso do trabalho e transmitir saberes.

A música entrou em sua vida cedo, aos 16 anos, em bandas de garagem. Mas, durante muito tempo, Ana não percebeu o tamanho daquele patrimônio cultural construído pelas mulheres de sua família. Foi apenas quando começou a pesquisar cultura popular que se deu conta da riqueza presente nas próprias memórias familiares.

“Eu precisei sair para pesquisar cultura popular para perceber que aquilo que existia na minha família também era cultura. Que aqueles cantos eram tradição”. Foi nesse momento, aos 25 anos, que sua música mudou de direção. Desde então, sua obra é atravessada pela ancestralidade: mistura ritmos como rock e congado mineiro, mas sempre com letras que evocam espiritualidade e memória. 

mulher com cabelo rosa

©divulgação

“Eu canto os cantos tradicionais, os cantos de trabalho que minha avó ensinou para minhas tias, para minha mãe, desde que eu nasci. Então a música sempre teve comigo”, afirma.

Sua fé é motor de resistência. Mesmo diante das dificuldades de ser artista independente e mãe atípica, ela segue cantando como forma de rezar e de existir. “É difícil, mas contra todas as estatísticas a gente continua resistindo”, diz. A música, para Ana, é tanto um ato de sobrevivência quanto de afirmação identitária.

Hoje, o instrumento que simboliza essa travessia é o asalato, instrumento de percussão de origem africana feito com cabaças e sementes. A partir dele, Ana iniciou uma investigação que a levou para além da história familiar, em direção às origens africanas da diáspora. Hoje, é a única luthier mulher de asalato no Brasil.

O termo luthier designa quem constrói instrumentos musicais. Assim, ser uma luthier de asalato é ser responsável por criar e dar forma a esse instrumento, adaptando-o às necessidades dos músicos e preservando sua tradição.

“O asalato é um instrumento dos meus ancestrais da África Ocidental. Foi através dele que eu consegui fazer esse caminho inverso e entender o que existia antes do quilombo”.

Essa pesquisa também teve efeitos concretos dentro da própria família. Foi por meio dela que o pertencimento quilombola passou a ser afirmado de forma mais explícita entre os parentes. “Minha mãe chamava o quilombo de vilarejo por causa do racismo. Hoje minhas primas trabalham com educação quilombola. Ver elas dizendo que têm orgulho de ser quilombolas foi uma das maiores recompensas que eu tive”.

Atravessando o presente

Se a ancestralidade é o eixo da sua música, a fé é o motor que mantém o caminho aberto. Para Ana, espiritualidade e carreira não são dimensões separadas. “A fé está presente em todos os aspectos da minha vida e da minha carreira. Eu sinto que não estou cantando só com a minha voz — eu estou carregando várias outras vozes”.

A fé está presente em todos os aspectos da minha vida e da minha carreira. Eu sinto que não estou cantando só com a minha voz — eu estou carregando várias outras vozes

Ana Cacimba

Hoje, ela vive um momento de consolidação e expansão artística. Em 2025, celebrou dez anos de trajetória com o projeto “Luminosa – Ato 1: Lua”, que dialoga com espiritualidade e ritmos afro-brasileiros.

Esse universo simbólico aparece também na nova faixa, “Mandinga”, lançada em janeiro de 2026, em parceria com Léo da Bodega e produção dos Los Brasileiros. Na canção, a palavra historicamente associada a amuletos de proteção africanos é transformada em metáfora de resistência e força espiritual. O refrão resume bem essa ideia: “Todo fim é um novo começo, toda queda lhe põe de pé” .

“Mandinga” traz uma sonoridade afro-pop tropical, misturando violões, congas e beats eletrônicos, com referências à energia de Iemanjá e à estética da nova MPB solar. O lançamento veio acompanhado de um vídeo criado por Ysis Policarpo, reforçando a atmosfera acolhedora e espiritual da obra .
Assim, Ana Cacimba segue construindo uma obra que mistura tradição, pesquisa e experimentação sonora. Mas, para ela, o ponto de partida continua o mesmo: as vozes que vieram antes. “Eu sei que não estou sozinha. É como se tivesse um monte de ancestrais atrás de mim dizendo: vai”

Eu sei que não estou sozinha. É como se tivesse um monte de ancestrais atrás de mim dizendo: vai

Ana Cacimba