Do início ao recomeço: a trajetória da artista Drik Barbosa
Cantando rap e R&B, Drik Barbosa inspira mulheres com mensagens de autoestima e empoderamento
Por Beatriz de Oliveira
05|03|2026
Alterado em 05|03|2026
Drik Barbosa começou a escrever letras de rap aos 14 anos. Hoje, aos 34, trilhou um caminho de amor próprio e cura de inseguranças através da música. Ao mesmo tempo, sente que ainda há muito a explorar e aprender nesse universo. Atualmente, vive uma fase de recomeço na carreira, mas tem a mesma empolgação daquela garota que se encantou com o hip-hop.
“Eu aprendi muita coisa nesse tempo, de que não podemos desistir, temos que confiar, e isso vem muito da necessidade que nós, mulheres pretas, temos de acreditar, de sonhar para ver para além da nossa realidade, que é muito difícil”, pontua.
A cantora seguiu à risca esse aprendizado e se manteve confiante em seu trabalho. “É isso que eu continuo cantando, para a gente acreditar, mas com muito pé no chão, com muita consciência. Não podemos perder a esperança na vida, o olhar de beleza para a vida, mas também não podemos nos isentar de estar a par das lutas”, diz.
É isso que eu continuo cantando, para a gente acreditar, mas com muito pé no chão, com muita consciência
Drik Barbosa
A artista, que transita entre o rap e o R&B (abreviação para rhythm and blues), vê consolidado o seu sonho de pagar as contas e ajudar a família através do trabalho com a música. São 135 mil ouvintes mensais na plataforma Spotify e mais de 7 milhões de visualizações no clipe Quem tem joga, por exemplo.
Drik entende também que parte importante para chegar ao ponto em que está hoje foi não se desumanizar dentro do mercado musical, se permitindo cantar sobre suas subjetividades. “Eu sou uma mulher preta na sociedade, e isso já me desumaniza o tempo todo”.
© Vitor Cipriano
O nascimento de uma artista
O caminho pela música como carreira e ideal de vida foi natural. Drik define sua família como “muito musical”. A paulistana viveu até os 26 anos de idade em uma ocupação na Vila Mariana, em São Paulo, e era cercada por familiares.
Começou a compor ainda na adolescência. Seus primeiros versos eram letras de amor, inspiradas em suas paixões da época. Logo, passou a escrever letras em cima das batidas de músicas de R&B que costumava ouvir.
“Eu gostei da sensação e da adrenalina de criar alguma coisa. E, na adolescência, quando eu comecei a fazer rap, veio muito dessa necessidade de colocar para fora o que eu sentia”, conta.
Ainda bem jovem, Drik passou a participar da Batalha do Santa Cruz, batalha de rima que ocorre desde 2006 e é considerada um dos berços mais importantes do rap paulista. Foi nesse espaço que ela entendeu que queria trilhar uma carreira no hip-hop.
“Foi uma forma de retratar como eu via o mundo. E foi nisso que o hip-hop me encantou muito, porque, para além de falar das mazelas, desigualdades e todas as questões que enfrentamos sendo pretas no Brasil, eu podia cantar também sobre festa, sobre me divertir. O hip-hop é uma grande inspiração para a gente existir”, afirma.
Nesse início, Drik encontrou inspiração em artistas que conheceu nessas batalhas e eventos de hip-hop, e passou a sentir a necessidade de desenvolver uma maior consciência racial e social, para transmitir isso ao público.
© Vitor Cipriano
As mulheres no rap e a força do coletivo
“O Rimas & Melodias foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram na minha carreira”, relata a rapper sobre o grupo musical de hip-hop e soul criado em 2016 e composto por Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie, Tássia Reis e Tatiana Bispo.
Para Drik, foi um marco “subir no palco com sete mulheres, cada uma com a sua identidade, com a sua voz, com a sua forma de ver o mundo. Isso inspirou muitas mulheres”. Ela era uma das mais jovens do grupo e conta que aprendeu muito sobre autoestima com as colegas, ao mesmo tempo em que buscava passar mensagens de pertencimento ao público.
O grupo estreou com uma music session gravada na Casa Brasilis, em São Paulo (SP), e com a música Cypher de abertura. Logo depois, lançaram o disco “Rimas & Melodias”, com sete faixas.
As atividades seguiram até o ano de 2018, mas as integrantes ainda conversam, e Drik revela o desejo de trabalhar em um novo álbum entre elas.
A artista enxerga o Rimas & Melodias como um marco na busca por espaço para mulheres no rap. Afinal, o grupo participou de diversos festivais e shows pelo país, consolidando nos palcos a voz de sete mulheres, em meio a um cenário de machismo no movimento hip-hop e no ramo musical.
Mulheres enfrentam uma série de barreiras para trabalhar nessa área. Pesquisa realizada pela União Brasileira de Compositores (UBC) mostrou que 79% das mulheres na música já sofreram discriminação de gênero nesse meio. O estudo foi realizado junto a compositoras, intérpretes, musicistas, produtoras fonográficas e técnicas.
Fazendo um comparativo entre o início de sua carreira e o momento atual, Drik avalia que há um avanço na valorização feminina no rap, mas ainda há enfrentamentos a serem travados.
“Nisso, o Rimas & Melodias teve um impacto muito legal, porque saímos em revistas, em editoriais, fomos convidadas para oportunidades para as quais não víamos outras mulheres também sendo convidadas a estar”, pontua.
Acrescenta ainda que essa conquista só foi possível porque mulheres que faziam rap nos anos 80 abriram esse caminho. Drik se vê como uma continuação desse legado. “É importante a gente continuar lançando e convidando umas às outras pra gente poder ir fortalecendo o nosso lado da cena”.
O recomeço de Drik Barbosa
“Eu tenho muitas inseguranças para curar ainda. Eu só vivi quase 34 anos, eu tô começando a viver muita coisa agora só”, relata.
Dona dos EPs Espelho (2018) e Nós (2022), e do álbum Drik Barbosa (2019), a artista também coleciona participações em músicas de colegas, como Flow MC, Amiri, Marcello Gugu, Projota e DJ Caique. Todo esse trabalho lhe rendeu também a construção de uma comunidade de fãs, com os quais ela faz questão de compartilhar seus momentos de vida.
Para além das mensagens de carinho nas redes sociais, os momentos de maior troca são nos shows, nos quais ela consegue captar a emoção de quem a escuta e também recebe relatos de fãs contando que suas músicas as ajudaram a passar por momentos difíceis, a compreenderem a sua potência e a construírem autoestima, além de curar inseguranças e feridas da vida.
© Vitor Cipriano
Depois de mais de três anos sem lançamentos, seu mais recente trabalho é o Projeto 2D, duas faixas publicadas em novembro de 2025. O nome remete a dois lados de uma mesma Drik Barbosa. A música “Sob Medida”, com participação de Cristal, Stefanie e Grou, traz uma mensagem de empoderamento a partir de diferentes gerações do rap. Já a faixa “Gosto Bom”, traz um tom romântico e de autoconfiança.
O lançamento marca uma nova fase da carreira da cantora, que voltou a ser uma artista independente após a saída do selo Laboratório Fantasma no ano passado. Ela explica que isso exige mais esforços para divulgação de seu trabalho e, por isso, conta ainda mais com o apoio de seus fãs.
No âmbito pessoal, também lidou com questões de saúde, passando, inclusive, por cirurgia nas cordas vocais. Isso e outras coisas a impediram de concluir o desejo de lançar um novo projeto ainda em 2023.
Ela define esse momento como “um recomeço” e planeja um novo álbum que reflita isso. “Estou aqui de volta. Voltei e não paro mais. Não vou dar mais pausas, com fé em Deus e nos orixás”, diz.