No lugar onde Tainara foi morta, sua mãe tomou a palavra
Ato na Marginal Tietê reúne familiares, ativistas e autoridades para homenagear vítimas de feminicídio
Por Beatriz de Oliveira
05|03|2026
Alterado em 05|03|2026
Com os olhos marejados, refletindo a dor de uma perda imensurável, e a voz consciente, de quem sabe que outras mães também precisam aguentar o peso que é perder uma filha para o feminicídio, Lúcia Aparecida da Silva discursou acerca da crueldade a que sua filha Tainara Souza Santos foi submetida.
“No dia 29 de novembro de 2025, a minha filha foi atropelada, arrastada, presa embaixo do carro, parecendo um saco de lixo (…). Nenhuma mãe merece passar pelo que a gente passa. Eu tô falando em nome da Tainara e em nome de todas as outras”, afirmou.
Lúcia Aparecida da Silva fala sobre dor de mães que perdem as filhas para o feminicidio
©Beatriz de Oliveira
A fala aconteceu durante um ato memorial pela vida das mulheres, realizado pelo Ministério das Mulheres no local em que Tainara foi morta, em um trecho da avenida Marginal Tietê. Com apresentações culturais, falas de autoridades e ativistas, e inauguração de um mural de mais de 140 metros, o evento buscou homenagear Tainara e as demais vítimas de feminicídio no país.
No dia 29 de novembro, Tainara Souza Santos foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro na Marginal Tietê. O crime ocorreu após ela deixar um bar no Parque Novo Mundo. Seu ex-ficante, Douglas Alves da Silva, apareceu no local e iniciou uma discussão. Depois, esperou por ela do lado de fora e cometeu o atropelamento.
No dia seguinte Douglas foi preso. Em 1º de dezembro, Tainara passou por uma cirurgia de amputação das pernas. Já no dia 24 de dezembro, a mulher faleceu após passar 25 dias internada. Douglas segue preso e responde ao processo na Justiça.
Centenas de flores foram entregues ao público participante, a fim de representar as vítimas do feminicídio. Entre os presentes, havia integrantes de movimentos sociais, além de familiares e conhecidos de Tainara e de outras vítimas de feminicídio.
Priscila Verson, amiga de Tainara e, assim como ela, moradora do Parque Novo Mundo, zona norte da capital paulista, também foi lembrada durante o ato. Ela foi vítima de feminicídio no dia 23 de fevereiro.
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“A violência contra a mulher é planetária, porque o machismo e a misoginia infelizmente estão na raiz da organização de uma sociedade que não pôs no centro os valores importantíssimos da solidariedade, do amor, da amizade e do respeito”, destacou a Márcia Lopes, ministra das Mulheres.
Márcia Lopes, ministra das Mulheres, fala sobre violência contra mulher
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Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, era uma das autoridades presentes no ato. “O feminicídio é físico, mas é também cultural, social, afetivo e emocional. Tem muitas formas de matar uma mulher (…) Aqui temos uma guerra contra a vida das mulheres”, destacou.
Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, foi uma das autoridades presentes
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Em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio, o que indica um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, de acordo com o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil.
As maiores vítimas desse tipo de crime são as mulheres negras. Segundo a pesquisa “Quem são as mulheres que o Brasil não protege?”, em dez anos (de 2015 a 2024), 68% do total de mulheres assassinadas por serem mulheres eram negras.
Jeferson Eloi, líder comunitário do Parque Novo Mundo, frisou que os homens devem sair de seus locais de conforto e somar esforços à luta contra o feminicídio. “É um momento em que as mulheres estão sendo desvalorizadas por homens que não têm valores e que não deveriam ser chamados de homens, porque o homem deve respeitar a mulher na sua essência”, disse.
Jeferson Eloi é líder comunitário do Parque Novo Mundo
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Ao fim do ato, durante a coletiva de imprensa, a ministra Márcia Lopes discorreu sobre o Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, iniciativa lançada pelo governo federal no dia 4 de fevereiro, que prevê ações integradas de prevenção, proteção e responsabilização nos casos de violência letal contra mulheres.
“Nós estamos num processo de mapear o que tá acontecendo no país, nos estados e municípios. Porque cada estado e município tem uma rede de proteção e de atendimento às mulheres. Uma reclamação é que não há delegacias especializadas que funcionem nos municípios; isso tem que ser ampliado e funcionar aos finais de semana, 24 horas por dia”, pontuou.