Ilú Obá De Min: o carnaval paulistano começa no tambor das mulheres negras
Em 2026, o bloco homenageia a sacerdotisa Ifátinùké para resgatar histórias apagadas e afirmar o carnaval como ato político, ancestral e de resistência
Por Amanda Stabile
11|02|2026
Alterado em 11|02|2026
Antes dos trios elétricos, antes dos grandes blocos lotarem o centro da cidade de São Paulo (SP), o carnaval de rua começa ao som de tambores tocados por mulheres negras. Há mais de vinte anos, é o Bloco Afro Ilú Obá De Min quem faz essa abertura.
Fundado em 2004, o coletivo nasceu do encontro entre percussionistas, educadoras e militantes da cultura afro-brasileira e se consolidou como um dos principais símbolos do carnaval paulistano — reunindo hoje cerca de 400 integrantes entre bateria, dança e produção.
“Quando começamos, há 21 anos, nosso foco era tocar tambor, mergulhar nas musicalidades afro-brasileiras e nos toques dos orixás. Já começamos femininas, imaginando a Rainha Nzinga. Éramos 30 mulheres, negras e não negras, sem imaginar que o Ilu Obá se tornaria essa grande quilomba”, recorda a diretora artística Mafalda Pequenino.
O nome carrega esse propósito desde o início. Em iorubá, Ilú Obá De Min costuma ser traduzido como “mãos femininas que tocam tambor para o rei” — uma referência ao tambor como instrumento sagrado e à centralidade das mulheres negras como guardiãs do ritmo, da memória e da condução do cortejo. Mais do que um bloco, o grupo se define como uma irmandade e um ecossistema afrocentrado, que atua o ano inteiro com formação, oficinas gratuitas e ações educativas.
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A diretora resume:
O Carnaval é a coroação de todos os outros projetos que a gente desenvolve durante o ano.
Para ela, o Ilú funciona como uma “escola sem paredes, um lugar de acolhimento, afeto e muito aprendizado”.
Mafalda está no bloco desde o começo e conta que não imaginavam que estavam construindo um legado tecido pela educação, pela cultura e pela arte negra. “A cada ano homenageamos uma mulher negra importante, não só para a população afro-brasileira, mas para toda a sociedade”, conta.
Em 2026, o bloco vai levar para a rua uma história que atravessa o Oceano Atlântico.
A história que o cortejo quer contar
O enredo deste ano é “Ifátinùké – Iyá-Olobá do Axé Transatlântico”, parte da Ópera Negra Obaomin – A Soberania de Yemanjá Ogunté.
A homenageada é Ifátinùké, também conhecida no Brasil como Inês Joaquina da Costa, sacerdotisa africana de Oyó, na atual Nigéria. Liberta, ela chegou ao Brasil no século 19 e fundou em Pernambuco o Terreiro Yemanjá Ogunté Obaomin — uma das casas mais antigas do culto iorubá-nagô em atividade. Matriarca, liderança espiritual e política, Ifátinùké organizou redes comunitárias, preservou saberes religiosos e ajudou a estruturar o papel central das mulheres nos terreiros.
Ao escolhê-la como enredo, o Ilú não quer apenas contar uma biografia. Quer enfrentar o apagamento histórico. Aponta:
Essas mulheres fundaram as primeiras casas de Candomblé, ressignificando organizações matriarcais em terras brasileiras. Os terreiros são territórios potentes de preservação da identidade afro-brasileira, lugares políticos e afetivos, verdadeiras pequenas Áfricas.
Ela lembra que a pesquisa exigiu esforço coletivo. Para construir a narrativa, o coletivo promoveu encontros do projeto Diálogos Negros, convidando pesquisadoras e lideranças religiosas para estudar documentos, teses e memórias orais. “Foi um processo de escavação histórica, já que há muitas lacunas e tentativas de apagamento”, explica.
A escolha do enredo ganha ainda mais urgência num cenário em que os ataques às religiões de matriz africana seguem crescendo no país — e atingem principalmente mulheres. Dados do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos, indicam que a maioria das vítimas de intolerância religiosa é mulher, com forte incidência entre praticantes de umbanda e candomblé.
Só em 2024, o Brasil registrou 3.853 violações, um aumento de mais de 80% em relação ao ano anterior, com São Paulo liderando os casos. Relatório recente do ministério aponta ainda que 76% dos terreiros mapeados já sofreram racismo religioso.
Hoje ainda há perseguição às sacerdotisas, intolerância religiosa e racismo. Por isso, é fundamental trazer a história de Ifátinùké, espelho de tantas mulheres negras mantenedoras de Axé.
Mafalda Pequenino
Como isso vira carnaval
No cortejo, essa pesquisa se transforma em corpo, som e rito. A chamada Ópera Negra é pensada em atos, quase como uma encenação a céu aberto. O desfile começa com o xirê, sequência de cantos e danças para os orixás, e segue com o abre-alas “As Mantenedoras do Axé”, reunindo mães de santo, yalodês, lideranças quilombolas e mulheres de irmandades negras.
Depois, entram as composições que narram a travessia de Ifátinùké: África, diáspora, fundação dos terreiros, continuidade do matriarcado. São dezenas de instrumentos como alfaias, djembês, xequerês e agogôs, vozes e dançarinas formando um grande coro ancestral. Uma cena que mistura espetáculo, cerimônia e manifesto político.
Uma história contada ano após ano
O enredo de 2026 não é um ponto fora da curva na trajetória do Ilú Obá De Min. Ele dá continuidade a um projeto que o bloco constrói há mais de duas décadas: usar o carnaval como ferramenta de memória, formação política e valorização da história das mulheres negras.
Desde o primeiro cortejo, em 2005, quando homenageou a Rainha Nzinga, liderança angolana símbolo de resistência ao colonialismo, o coletivo transforma a rua em espaço de aprendizado público. Ao longo dos anos, os desfiles já reverenciaram nomes como Leci Brandão, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Lia de Itamaracá, Sueli Carneiro, mulheres quilombolas, as Candaces — rainhas-mães africanas — e, mais recentemente, a família de Marielle Franco.
A cada carnaval, o bloco articula pesquisa histórica, música, dança e religiosidade afro-brasileira para trazer à tona trajetórias que raramente aparecem na narrativa oficial do país. O cortejo funciona como aula aberta, celebração e gesto político ao mesmo tempo.
Ifátinùké agora se soma a essa linhagem de mulheres que sustentam a memória coletiva do Ilú — histórias que atravessam o Atlântico, os terreiros e as ruas, transformando o centro de São Paulo em um “um um terreiro a céu aberto”, nas palavras da diretora artística.
A abertura do carnaval
O público vai poder acompanhar essa travessia em dois momentos:
Na sexta-feira, 13 de fevereiro, às 20h, o Ilú Obá De Min faz a abertura oficial do carnaval de rua, saindo da Praça da República, no centro;
No domingo, 15 de fevereiro, às 14h, o bloco realiza um segundo cortejo, mais diurno e familiar, com saída em frente à Cia Livre, na Barra Funda.