mulher trans sorrindo

7 produções audiovisuais para celebrar a vida e a resistência trans

Em um país que lidera o ranking de violência, o cinema e as séries brasileiras deslocam o olhar do trauma para a autonomia, o afeto e a ocupação de territórios

Por Eufrasia Neres

30|03|2026

Alterado em 30|03|2026

O Brasil completa em 2026 o seu 18º ano consecutivo no topo da lista de países que mais matam pessoas trans no mundo. Segundo o mais recente Dossiê da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), relativo aos dados de 2025, o cenário de violência permanece crítico e profundamente racializado: 70% das vítimas identificadas eram pessoas negras.

Embora o relatório aponte uma redução numérica de 34% nos assassinatos em relação ao ano anterior (80 casos registrados em 2025), a ANTRA alerta para a subnotificação e para a “necro-trans-política”, que silencia trajetórias nas periferias e nos interiores. No topo dessa estatística, Ceará e Minas Gerais dividem o 1º lugar (8 casos cada), seguidos por Bahia e Pernambuco na 2ª posição (7 casos cada).

Neste Dia Internacional da Visibilidade Trans (31/03), o Nós, mulheres da periferia convida a furar a bolha da dor através da arte. Selecionamos sete produções que humanizam essas vivências, celebram a maturidade e reforçam o direito de sonhar e envelhecer.

1. Meu Corpo é Político

mulher trans de cabelo loiro e camisa verde

©reprodução

O documentário aborda o cotidiano de quatro militantes LGBT que vivem na periferia de São Paulo. A partir da intimidade e do contexto social de personagens como Linn da Quebrada e Paula Beatriz, a obra levanta questões contemporâneas sobre a população trans e suas disputas políticas. Ao focar em atos comuns, como trabalhar e circular pela cidade, a diretora Alice Riff reafirma que o simples ato de existir em território periférico é uma das maiores formas de resistência.

2. Fabiana

mulher trans fumando cigarro dentro de caminhão

©reprodução

Uma lição de longevidade que desafia a estatística. Este road movie documental, dirigido por Brunna Laboissière, acompanha a última viagem de Fabiana Camila Ferreira, uma caminhoneira trans, goiana e lésbica, antes de sua aposentadoria após 30 anos de estrada. Enquanto o senso comum e as estatísticas de violência muitas vezes confinam trajetórias trans ao gueto ou à marginalidade, Fabiana ocupou as rodovias, construindo uma vida nômade e cheia de afetos. O filme foge do “cinema-denúncia” para focar no cinema-verdade: vemos uma mulher potente, que reivindica o seu direito de envelhecer com dignidade e história para contar. É uma obra fundamental sobre encontro, escuta e a ocupação trans em territórios historicamente masculinizados

3. Mulher Original

mulher trans sorrindo

©Pedro Andrade/Divulgação

Primeira série de ficção gravada no Recife a trazer mulheres trans como protagonistas centrais. Sob direção de Carlota Pereira e Julia Katharine, a trama mistura drama e investigação na boate Mangueirão, um espaço de resistência em Pernambuco desde os anos 80. A obra humaniza trajetórias e afirma o direito à representação.

  • Onde assistir: Exibição original na TV Pernambuco (TVPE).
  • Trailer:Youtube

4. Alice Júnior

mulher trans maquiada e sorrindo

©reprodução

Alice é uma adolescente trans recifense e youtuber que precisa encarar o conservadorismo de uma escola no interior após mudar-se com o pai. Com leveza e cor, o filme de Gil Baroni reivindica o direito das jovens trans ao afeto, à amizade e ao tão sonhado primeiro beijo.

5. Manhãs de Setembro

Atriz Liniker com semblante sério

©reprodução

Protagonizada por Liniker, a série narra a busca de Cassandra por independência em São Paulo. O foco aqui é a autonomia financeira e a construção de laços afetivos que fogem do óbvio, mostrando que a rede de apoio e a “família escolhida” são fundamentais para a sobrevivência urbana.

6. Laerte-se

Ilustração de Laerte com fundo de quadrinhos

©divulgação Netflix

Um mergulho íntimo na vida da cartunista Laerte Coutinho. O documentário é um ensaio filosófico sobre o corpo, o gênero e a transição na maturidade. Laerte convida o público a conhecer o seu mundo enquanto reflete sobre a sua longa trajetória de auto aceitação.

7. Toda Forma de Amor

mulher trans atrás de mesa de som

©reprodução

Esta minissérie utiliza o suspense para explorar as múltiplas possibilidades de afeto. Enquanto a boate Trans World é inaugurada em São Paulo, assassinatos misteriosos de transexuais ocorrem na cidade — um espelho da violência urbana denunciada pela ANTRA, mas tratada aqui com profundidade narrativa e humanidade.