Documentários sobre fé, resistência e intolerância religiosa no Brasil
Uma seleção de filmes que revelam como fé, território e violência se cruzam no Brasil
Por Amanda Stabile
22|01|2026
Alterado em 11|02|2026
A intolerância contra religiões de matriz africana segue sendo uma realidade no Brasil e se expressa em ataques a terreiros, perseguições, intimidações e violências simbólicas e materiais. A pesquisa Respeite o meu terreiro, realizada em 2025, mostrou que oito em cada 10 terreiros já sofreram racismo religioso e que mais de 70% foram alvo de ameaças, depredações ou destruição, muitas vezes sem que os casos cheguem a ser denunciados.
Diante desse cenário, o audiovisual cumpre um papel central ao dar visibilidade a essas violências e, ao mesmo tempo, afirmar a força, a memória e a complexidade das religiões de matriz africana. A seguir, reunimos cinco documentários para combater a intolerância contra religiões de matriz africana, que ajudam a entender o Candomblé, a Umbanda e os orixás para além do estigma, mostrando o sagrado como território de resistência e direito.
1. A Luta Sagrada (2024)
©Divulgação
A série documental A Luta Sagrada – O combate à intolerância no estado da Bahia retrata a resistência das religiões de matriz africana frente à intolerância religiosa no estado da Bahia, a partir de depoimentos de representantes religiosos e institucionais. Ambientada em Salvador e em cidades do Recôncavo baiano, a produção evidencia como o preconceito religioso se manifesta como violação de direitos humanos e liberdades individuais, ao mesmo tempo em que afirma a importância do respeito, da diversidade religiosa e da convivência pacífica entre diferentes crenças. Assista aqui.
2. Caminhos dos Orixás (2023)
©Divulgação
Caminhos dos Orixás é uma série documental que percorre os principais orixás do Candomblé para narrar, a partir de seus arquétipos, mitos e representações, a continuidade da memória, da fé e da resistência dos povos negros na diáspora. Ao retomar a travessia forçada de africanos escravizados e os saberes que sobreviveram a ela — músicas, danças, comidas, rituais, encantamentos e o cuidado com as plantas —, a série mostra como o Candomblé se tornou um espaço de preservação espiritual e cultural, mesmo distante da África. Em diálogo com mães e pais de santo, praticantes e estudiosos, os episódios revelam como os orixás estruturam modos de existir, interpretar o mundo e enfrentar o racismo, articulando heranças africanas, aprendizados indígenas e estratégias de sobrevivência em território brasileiro. Disponível no Canal Curta e no Prime Vídeo.
3. Fé e Fúria (2019)
©Divulgação
Fé e Fúria é um documentário que investiga como a associação entre religião e poder tem produzido conflitos e intolerância religiosa em favelas e subúrbios do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, especialmente no Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A partir de uma investigação conduzida pelo documentarista Marcos Pimentel, o filme revela a atuação de traficantes convertidos a igrejas neopentecostais que impõem normas religiosas às comunidades que controlam, perseguindo terreiros de matriz africana e interferindo na organização do território e na vida cotidiana dos moradores. Ao expor a figura dos chamados “traficantes evangélicos”, a obra mostra como a instrumentalização da fé reforça relações de dominação, alimenta a intolerância religiosa e dialoga com a ascensão de valores conservadores nas periferias urbanas brasileiras. Disponível no Prime Vídeo.
4. Exu – Além do Bem e do Mal (2012)
©Divulgação
Exu além do bem e do mal é um curta-documentário que propõe uma investigação poética sobre um dos orixás mais controversos das religiões de matriz africana. Conhecido por múltiplos nomes — como Legba, Bará, Eleguá e Tranca-Rua —, Exu foi historicamente associado ao diabo por leituras cristãs e, por isso, reduzido à ideia de mal. O filme confronta essa visão ao apresentar Exu, no Candomblé, como a figura mais humana dos orixás: senhor do princípio, da transformação e do movimento, nem totalmente bom nem totalmente mau, assim como os próprios seres humanos. O curta convida o espectador a compreender sua complexidade simbólica, sua centralidade espiritual e sua potência como força de mediação, ambiguidade e criação. Assista aqui.
5. A Boca do Mundo – Exu no Candomblé (2011)
©Divulgação
A Boca do Mundo – Exu no Candomblé é um documentário etnográfico e experimental que investiga as múltiplas manifestações de Exu no cotidiano, revelando sua presença nas ruas, mercados, encruzilhadas, festas, objetos, sons, comidas e relações sociais ligadas ao Candomblé. A obra propõe uma ruptura com o formato documental tradicional ao envolver pessoas do próprio Candomblé na captação das imagens, valorizando a intimidade material e espiritual com o orixá e construindo uma representação mais sensível e situada. Com depoimentos de Mãe Beata de Iemanjá e de outras pessoas que vivem a religião, o filme nasce da pesquisa de mestrado da diretora e fotógrafa Eliane Coster e não busca esgotar o tema, mas oferecer ao espectador elementos para compreender e sentir a riqueza simbólica, cultural e cotidiana de Exu. Assista aqui.