Foto mostra mulher segurando um cartaz com o texto a maior epidemia no Brasil é o feminicídio

4 casos e um mesmo problema: a violência contra mulheres no ambiente profissional

76% das mulheres já sofreram algum tipo de violência no trabalho, o que contribui para um cenário de impunidade e risco constante para quem simplesmente tenta assegurar o próprio sustento

Por Amanda Stabile

20|01|2026

Alterado em 20|01|2026

Casos de agressão, racismo e até feminicídio no ambiente de trabalho não são episódios isolados no Brasil. Eles refletem uma realidade mais ampla vivida por mulheres em todo o país. Um levantamento divulgado em 2020 pelo Instituto Patrícia Galvão mostra que 76% das mulheres já sofreram algum tipo de violência no trabalho, como xingamentos, ameaças, assédio sexual ou agressões físicas.

O estudo também aponta que 12% das entrevistadas relataram ter sofrido assédio sexual ou estupro no ambiente profissional, e 4% foram vítimas de agressões físicas. Além da violência direta, a pesquisa evidencia a impunidade como regra: em apenas uma parte dos casos denunciados houve punição aos agressores, e muitas mulheres sequer sabem se alguma medida foi tomada. Esse cenário contribui para o silêncio, o medo e o adoecimento, levando inclusive a pedidos de demissão.

Para a advogada Fayda Belo, especialista em crimes de gênero, esse cenário é sustentado por uma cultura que não reconhece o espaço profissional como um lugar pensado para as mulheres, especialmente quando elas ocupam posições de poder. A advogada ressalta ainda que a violência no trabalho não pode ser dissociada de outras formas de desigualdade de gênero.

Segundo ela, o homem que exerce violência dentro de casa muitas vezes é o mesmo que reproduz comportamentos abusivos no ambiente profissional. Sem políticas internas efetivas de prevenção, escuta e responsabilização, as empresas acabam reforçando um ciclo de medo e impunidade, no qual a maioria das mulheres prefere suportar a violência em silêncio a arriscar sua renda, sua reputação ou sua permanência no trabalho.

Abaixo, listamos quatro casos ocorridos em diferentes estados do país que evidenciam como mulheres seguem expostas à violência mesmo enquanto trabalham, seja por meio de agressões físicas, racismo, assédio ou feminicídio:

  1. Ex-funcionárias denunciam racismo e agressão em Salvador

Em 6 de janeiro de 2026, Mônica Freitas e Naiane Ferreira denunciaram ter sido vítimas de agressão física, ameaças e racismo cometidos pelo ex-chefe em um centro empresarial de Salvador (BA). O episódio foi registrado por câmeras de segurança e, segundo as vítimas, as intimidações começaram quando ainda trabalhavam para o suspeito e continuaram mesmo após deixarem a empresa, incluindo ameaças de morte e perseguições no prédio. Elas também relatam postagens racistas feitas pelo ex-patrão nas redes sociais, comparando a cor da pele de funcionários em confraternizações de anos diferentes. No dia da agressão, uma discussão no corredor do edifício terminou em violência, com participação da filha do suspeito. O homem nega as acusações e afirma que imagens e vídeos foram editados. O caso é investigado pela Polícia Civil da Bahia como lesão corporal dolosa e injúria racial.

  1. Mulher é agredida por colega durante trabalho em condomínio

Uma mulher de 38 anos foi agredida por um colega de trabalho com tapas e golpes de capacete enquanto atuava na portaria de um condomínio em Itapuã, em Salvador (BA), no dia 8 de novembro de 2025. A agressão foi registrada por câmeras de segurança após uma discussão quando o homem tentou entrar pela contramão. O agressor foi demitido pela empresa responsável, apresentou-se à Polícia Civil da Bahia, prestou depoimento e foi liberado, passando a ser investigado por lesão corporal dolosa. A vítima não teve ferimentos graves e recebeu apoio psicológico e jurídico.

  1. Duplo feminicídio no Cefet-RJ expõe violência no trabalho

Um duplo feminicídio ocorrido em 28 de novembro de 2025 no Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (Cefet-RJ) resultou na morte da diretora pedagógica Allane de Souza Pedrotti Matos, de 41 anos, e da psicóloga Layse Costa Pinheiro, de 40 anos, assassinadas a tiros dentro da instituição por um servidor que, segundo as investigações, não aceitava a chefia de mulheres. Após o crime, o autor cometeu suicídio. O caso, investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, chocou a comunidade escolar e trouxe à tona a violência de gênero e a resistência à autoridade feminina em espaços de trabalho.

  1. Vendedora é morta dentro de loja em Vila Velha (ES)

A vendedora Carla Gobbi Fabrete, de 25 anos, morreu na manhã de 11 de março de 2025 após ser esfaqueada no dia anterior dentro de uma loja de produtos eletrônicos no Polo de Moda da Glória, em Vila Velha (ES). O suspeito, Wenderson Rodrigues, de 30 anos — conhecido por vender doces vestido de Homem-Aranha — entrou no local fingindo ser cliente, levou a funcionária aos fundos da loja e a golpeou diversas vezes, conforme imagens de segurança. Carla foi socorrida em estado grave e internada na UTI em Vitória, mas não resistiu aos ferimentos. O homem foi detido minutos depois pela Guarda Municipal, encaminhado ao hospital e autuado em flagrante por tentativa de homicídio qualificado. Após a conclusão da investigação, o autor foi indiciado por feminicídio com dois agravantes: a impossibilidade de defesa da vítima e o fato de Carla deixar uma filha de dois anos. Ele permanece preso.